Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

Fazia poucos dias que Daiane arranjara aquele trabalho de caixa no supermercado Broa de Mel. Não era bem o que ela sonhara, mas quebrava um galho, pelo menos enquanto não passasse num concurso.

Daiane tinha três objetivos na vida. O mais urgente era conseguir um emprego estável nos Correios, na Caixa Econômica ou no Banco do Brasil, mas já se inscrevera cinco vezes e sempre levava pau. A propósito, a segunda meta era deixar de lado aquela vida de garota ao portador, que fica e fica e vai ficando, sempre se dando mal no final; arranjar um pequeno príncipe que não sumisse depois do crau e do tchau, gostasse de rap como ela, fosse maneiro no trato, limpinho e perfumado, curtisse tatuagem e tivesse um carango equipado com vidros fumê e som bem legal, para dar um rolê, etecetera e tal. O terceiro alvo era quase uma utopia: dar vida melhor à mãe diarista e ao irmãozinho farrista, mudar de Guaianazes para um bairro mais classe média, como Penha, Belenzinho, Vila Matilde ou Ermelino Matarazzo; há muito descartara Vila Prudente, Tatuapé e Água Rasa (desconfiava que, para esses lugares, não teria renda nem condições sequer a longo prazo).

Sentiu como que um balanço maneiro de palavras rimando, quando vestiu pela primeira vez a touca de véu e o avental bordado do Broa de Mel. Agora tinha registro em carteira, plano de saúde, INSS, férias, décimo terceiro, vale-transporte e FGTS.

O salário era titica, mas até que ficava razoável quando punha na conta as sacolinhas de alimentos com data vencendo que os repositores de estoques lhe presenteavam, ao cupom simbólico de um real, não porque fossem generosos ou esperassem algo em troca, mas para que os fornecedores poupassem o custo do descarte ou da incineração, o frete do retorno e um tal de estorno que ela não sabia direito o que era.

Daiane teve a impressão de que a energia do Broa de Mel era boa mesmo quando se arrepiou, numa tarde chuvosa em que operava um dos caixas de até 20 unidades, ante a visão de algo que lhe pareceu uma águia de asas abertas tatuada num braço cor de caramelo, do mesmo tom da pele dela. Ergueu os olhos para o dono da ave e mal conseguiu balbuciar o que o ofício lhe impunha:

— CPF… na… nota?

O do braço ilustrado notou que a garota do caixa se impressionara com sua figura, estava embasbacada; aquele brilho no olhar, a pele que cambiava para um tom entre cenoura e tomate, o tremor na voz, por certo nada disso ela aprendera no treinamento.

— Gostou, Daiane? — ele leu o nome dela no crachá, ergueu um pouco o braço esquerdo e indicou com as sobrancelhas a tatuagem.

Assim de mais perto, ela sentiu um perfume que lembrava uma combinação de almíscar com arruda, alecrim e talvez manjericão, presumiu que fosse um óleo espiritual, desses que fecham corpos ou abrem caminhos, o mesmo que brilhava na superfície tatuada.

— É dez. Parece que está voando.

— Está voando.

— Graça de águia.

— É gavião, princesa, gavião.

Ligeiro para pensar, ela pensa, associou depressa o meu nome ao da princesa, e deve ser corintiano como eu, provável membro da Gaviões.

— CPF…?

— É uma metáfora de mim.

Metáfora…!? Hmmm… Ele é sabido mesmo — ela avalia, mas não diz.

— A ave?

— O gavião. Temos asas longas, voamos alto e gostamos de céu.

— Você voa alto, é? No céu de onde?

— Por aí. Quando não está chovendo, claro: gosto de tattoo, mas não sou tatu.

Ela sorriu do trocadilho e pensou: papo maneiro, cheiroso, unhas cuidadas, cabelo da hora, curte tatuagem, só falta dizer que transa rap e tem um carango invocado.

— Pousou aqui no meu caixa porque lá fora está chovendo?

— Mais ou menos. Minha sorte melhora quando chove, mas não dou mole: deixei três passarem na frente até o seu número piscar para mim.

— Interessante você falar isso, a minha sorte também muda quando chove. CPF…?

— Daiane, você já viu o CPF de algum gavião?

Ela pensou um pouco, franziu a testa, fechou a cara e fez que não com a cabeça — que pena, ele estava indo tão bem. Teve a leve suspeita de que o dono do gavião insinuara uma grosseria metafórica.

— Faço um trato com você, Daiane. Se me der o número do seu telefone e me disser a que horas sai, vai passear na minha Pajero e digitar o CPF de um gavião de verdade.

— Digitar…?

— É… — ele fez um sinal rápido com os dedos, como se fosse um datilógrafo veloz.

Ela gostou da mímica, pois ao perguntar temera que o gesto seria outro, mas agora percebia que se precipitara ao franzir a testa e suspeitar.

— Você não está me parecendo um gavião de verdade.

— Não…? Por quê?

— É difícil explicar.

— Com que eu me pareço, princesa?

— Não sei direito. Gavião é tipo assim… meio agressivo, entrão, briguento… mais baixaria, sabe? Já você me parece mais light.

A supervisora dos caixas, que levava no crachá o nome de Jocenilda, ao perceber que a fila não andava e que a moça do terminal 5 estava de papo com um cliente, foi até lá e perguntou a Daiane qual era o problema.

— Nenhum. É que este senhor não consegue lembrar o número do CPF — ela mentiu.

— Se ele não lembra, não põe, a fila precisa andar, garota — ela elevou a voz, estalou os dedos determinando mais rapidez, expeliu um olhar enérgico e se afastou.

— Gorda e grossa — o dono do gavião observa, em tom discreto, que a supervisora meteórica não o ouça. — Vou homenagear essa baleia num rap.

— Não me diga que você é rapper…!

— Maciel, o Metafórico, nunca ouviu falar mim?

— Caraca…! Vai, diz logo a porcaria do CPF e anota o meu celular.

Entre uma digitada e outra, o número dela no celular dele e o CPF dele no sistema do Broa de Mel, ela sussurra que sai às quatro. Passa o leitor ótico num pacote da Skol, num aparelho de barbear da Gillette, num Diálogos Impossíveis, do Veríssimo, e num cedê do Gabriel, o Pensador, enquanto ele cantarola baixinho Chove Chuva, do Benjor.

O gavião tatuado paga em dinheiro, leva umas moedas de troco e vai saltitando na direção da escada rolante, coreografando a vitória. Ela ri, ele é um tolo de braços abertos, dá a impressão de que poderá alçar voo no final da reta se o carrinho não capotar antes.

Discussion - 8 Comments
  1. Milton Nauata

    jul 05, 2013  at 10:28 am

    Legal, gostei.
    MIlton

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  2. TeoFranco

    jul 06, 2013  at 10:28 am

    Parabéns Valente, é o cotidiano retratado em palavras com aquele tempero paulistano que lhe é peculiar. Aguardo os próximos capítulos…

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  3. Antônio Sérgio Valente

    jul 09, 2013  at 10:28 am

    Obrigado, Milton e Teo, pelo incentivo. Esta crônica é a primeira de uma série envolvendo esses personagens. Nos próximos episódios os conflitos e a tensão vão aumentar. Haverá inclusive polícia na parada… Será tudo inspirado na vida real.

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  7. pintobasto

    jul 27, 2013  at 10:28 am

    Gostei, Sérgio! Continua a história que tem pano para muitas mangas. O gavião e o CPF dão muitos romances.

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