Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

Foi só no terceiro contato imediato de primeiro grau entre Daiane, a caixa do supermercado Broa de Mel, e o neófito rapper que carrega um gavião tatuado no braço esquerdo, Maciel, o Metafórico, que a metáfora abriu as asas e o bico, eriçou as penas e armou as garras para o ataque.

Maciel contou a Daiane que ficara encucado com aquela história do CPF e com o que ela lhe informara no encontro anterior: que, em média, de cada três consumidores só um pedia para incluir o número no cupom. Revelou que vira na conversa da mina um mapa de mina.

— Você que me inspirou, princesa, minha fonte de mel. Se CPF na nota é grana que volta, então a gente pode deitar e rolar. Isso dá rap da pesada.

— A gente compra tão pouco, não volta quase nada.

— Quase um terço do imposto. É uma grana preta, princesa.

— Não é tanto assim. Só entra na conta o que o comerciante paga, é mixaria. Pelo menos as minhas compras dão merreca de retorno, algumas não dão nada, outras só centavos.

— Será que não é porque onde você compra os caras sonegam, minha lady?

— Não sei, acho que não. Dizem que é um problema da lei, uns põem a culpa numa tal de substituição, outros falam que é a centralização, eu não entendo direito.

— Mas mesmo assim, sempre tem os prêmios…

— É, tem os prêmios.

— E de grão em grão…

— … a galinha…

— A galinha não, princesa — ele a interrompe. — Qualé, o gavião!

— Será que gavião enche o papo com milho? Ouvi dizer que come bicho.

— Gavião come de tudo, até galinha e ovo. Então…

— Então o quê?

— Você tem na mão uma galinha dos ovos de ouro.

— Que nada, a minha só bota titica, compro pouco demais.

— Você não me captou, princesinha. O lance é o seguinte: se de cada três clientes só um pede para pôr o CPF, se você passar um dos outros dois com o meu número, a grana volta para mim. E depois a gente racha. Percebe?

— Isso é trambique, Maciel. Vai que alguém descobre…

— Quem vai descobrir? É tudo muito rápido. Veja bem: ‘CPF na nota, senhor?’ ‘Não, dane-se o governo’. Enquanto o babaca desabafa, você digita bem rapidinho o meu número, já decorado, ou faz uma cola, quem vai saber?

— Isso é malandragem, Maciel. Coisa mais feia.

— Que malandragem que nada. Quem se prejudica?

— O governo, ora.

— O governo de jeito nenhum. Pelo contrário, essa é a vontade do governo, ele quer que ponham o CPF no cupom para combater a sonegação. A gente não está ferrando nem o otário que dispensou a vantagem, ele não quis de livre e espontânea burrice. Ou esperteza, nunca se sabe. Talvez seja um baita sonegador, moambeiro, fabricante de pirataria, lojista de tretas e mutretas, pode até ser médico, advogado, engenheiro, decorador ou manicure que não dá recibo, ou quem sabe se não é um marginal, traficante, sequestrador, ladrão de banco, colarinho-branco, alguém que ganha muito por fora. Percebe, princesa, aonde quero chegar?

— Não sei, também pode ser alguém sério com outros motivos: talvez ache que o incentivo é merreca demais, ou que o governo está jogando dinheiro pela janela, que os comerciantes têm outros jeitinhos de sonegar, ou que é imoral devolver imposto para rico, em dinheiro, ou que alguém pode fazer mau uso das informações, que isso é mais um big brother da vida… Já ouvi muita coisa na boca do caixa, Maciel.

— Tudo bem, todos têm os seus motivos e interesses, e nós temos os nossos. Que mal há nisso? Veja que não vamos tirar nada de ninguém, só colaborar com o governo e receber uma vantagenzinha pelo serviço prestado.

— Não sei não…

— Sabe sim, você é esperta, já percebi, pega no ar, só está com medo.

— Essa colaboração com o governo é meio interesseira demais, não acha não?

— Poxa, princesa, assim você me ofende. Não passo de um serviçal voluntário da cidadania. E além do mais, tem um porém: preciso de grana para gravar o meu cedê.

Grana, ele tem uma Pajero e me fala em grana para gravar cedê…!?

— Aliás, por falar em além do mais, eu também tenho um porém: sabe quanto registro por dia? Mais ou menos dez mil. De duzentos a trezentos mil por mês. Se de cada três reais de compras um for para o seu CPF, isso vai dar uns setenta a cem mil. Você ganha isso?

— Não, por enquanto, princesa, que a minha carreira ainda não deslanchou, mas isso não tem a menor importância, o programa não prevê deduragem ao Leão.

— E você nasceu ontem, acreditou?

— Claro, o governo não vai sacanear um cidadão que quer colaborar — ele cantarolou.

Ela ficou pensativa durante um longo minuto: ele era cínico ou ingênuo? Ela hesitava, estava difícil entender quem seriam os prejudicados. Ainda assim, era algo errado, o bom senso lhe dizia. Podia ser descoberta e demitida, ou quem sabe pior ainda: presa.

— Não, estou fora dessa, Maciel. Isso tem tudo para dar caca.

— E se em vez de digitar o meu CPF, você decorar outros cinco ou dez e alternar?

— Como assim? Quais?

— De uns parentes que eu tenho.

— Mas o dinheiro só pode cair na conta bancária do dono do CPF.

— São contas que eu administro.

— Você administra dez contas…!?

— Gente minha. Mãe, irmãos, tias, primos. Os cartões e as senhas ficam comigo.

— Caraca… Então você já vem fazendo isso. Aquela história de que a nossa conversa no primeiro dia deixou você encucado, que fui sua inspiração, fonte de mel, o mapa da mina e tal, era tudo onda?

— Era. Não vou mentir.

— Não vai mentir mais, né, porque mentir você já mentiu.

— É verdade, você me capturou, princesa. Garota esperta. Estou nessa há uns dois anos. Tenho umas vinte ou trinta operadoras em lojas por aí.

— E naquele dia, quando se aproximou do meu caixa, você já tinha a intenção de me contratar para o seu enxame.

— Já, confesso. Sou um crápula.

— E eu seria só mais uma abelhinha…

— Não, jamais (ele pronunciou como em francês: jamé). Você é a mais lindinha de todas, e olha que eu ponho sempre a estética em primeiro lugar. Você tem tudo para ser a minha abelha-rainha, princesa, tudo.

— Acontece que eu não sou monarquista e não nasci para viver em colmeia.

— Você me rejeita, me nega mel, tudo bem, sem bronca. Mas será sempre a minha princesa Daiane, de coração, isso eu garanto. Palavra de gavião fissurado.

Palavra de gavião… Só então Daiane entendeu os sentidos ocultos da metáfora tatuada no braço esquerdo de Maciel, o Metafórico. É um gavião, princesa. Uma metáfora de mim. Ele não mentira ao decifrar a tatuagem, mas também não dissera toda a verdade. Ele não era uma ave maneira e de porte elegante, como ela imaginara; tampouco tinha asas longas, voava alto e gostava de céu, como ele próprio se definira. Era gavião, sim, mas por outras razões: conquistador sem escrúpulos e, sobretudo, ave de rapina.

— Estou fora, Maciel — ela disse, enquanto saía da Pajero. — Não me procure mais, senão aparo as suas garras e quebro os seus ovos, inclusive os de ouro.

Leia a crônica anterior: O CPF do Gavião

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