lae_de_souza[Laé de Souza *]

Tento me enganar pensando que o número de amigos é tão grande que não lembro os nomes de todos, mas, na verdade, ando realmente me esquecendo.

Não é raro, nos bate-papos, quando falam de um amigo comum ou de situações acontecidas lá atrás e identificam o sujeito pelas características físicas e até psicológicas, me perguntarem: “Como é mesmo o nome dele?”, eu não me lembro. Até aí, tudo bem, porque o interlocutor também não se lembra.

Quando falam o nome, dificilmente eu me recordo da fisionomia ou situações vividas com o fulano de quem se fala. Antes, investigava, questionava para ver se me recordava e aí, sim, vinha-me à memória. Hoje, já não ligo muito, embora de vez em quando me bata uma coisa assim, como se fosse desrespeito às pessoas e desconsideração com as amizades do passado.

Quantas vezes encontro pessoas nas ruas que me cumprimentam, conversam comigo e eu não me recordo dos seus nomes. Espero uma dica ou que outra pessoa se aproxime e o cumprimente pelo nome. Alguns dão essa dica na própria conversa, ou simulando um diálogo ao contar um caso “Então, ela falou: Jessé, saia logo da minha frente. Aí, então…”, o que facilita. Mas, alguns são massacrantes, chegam interrogando: “Lembra-se de mim?”. Saio com manha, tipo, “Sim, como não?” e consigo levar um papo. Mas, têm uns insistentes e perturbadores que questionam “Como é, e então?”. É de matar.

Outro dia, andando pela Rua Santa Ifigênia, aconteceu um desses casos. Um amigo se aproximou, cumprimentou e me abraçou efusivamente e, pelo aperto do abraço, percebi que éramos amigos de longa data. Abracei-o também fortemente e me recriminei por ter esquecido uma amizade tão grande e de um amigo que me prezava tanto e fazia tamanha festa ao me rever. Perguntou-me da minha mãe e do meu pai. Ao falar que já não o tinha, deixou cair uma lágrima, pediu-me perdão por tocar no assunto e acrescentou que o meu pai era uma boa pessoa. Quis saber da minha esposa, como estavam os filhos, e que a mãe dele sempre perguntava por mim. “Lembra quando você ia à minha casa e a mamãe fazia aquela sopa que você adorava? Minha mãe vive dizendo que você precisa ir até lá para revê-la e tomar a tão famosa sopa” e por aí continuava o papo. Cada vez mais eu ficava mal comigo; mas o amigo era compreensivo ou estava tão contente por me encontrar, que não observava que eu, por mais esforço que fizesse, não me lembrava nem vagamente dele.

Fiquei contente de reencontrar um amigo que valorizava tanto a amizade e me abraçava com carinho e força. Despedimo-nos e ele insistiu para que eu fosse visitá-lo. “Não vamos ficar tanto tempo sem nos ver, moro no mesmo lugar”, disse-me. Fiquei sem jeito de perguntar o seu endereço para fazer uma visita. Quase peço, mas achei que seria um desrespeito ao amigo demonstrar que não me recordava dele.
Saiu olhando para trás, abanando as mãos, e eu respondia aos acenos me sentindo mal por ser tão desligado a ponto de esquecer os amigos.

Nisso, um rapaz de uns trinta anos se aproximou, pediu-me desculpas e agradeceu por eu ser gentil com o pai dele, porque estava meio perturbado e, agora, andava com essa mania de abraçar todas as pessoas e dizer que as conhecia.

* Antonio Laé de Souza nasceu em Jequié, Bahia, em 15 de março de 1952. Jornalista, advogado, administrador de empresas e Agente Fiscal de Rendas de São Paulo. Autor de livros de crônicas bem humoradas publicadas em Acontece; das peças de teatro Noite de variedades (1972), Casa dos Conflitos (1974/75) e de Minha Linda Ró (1975). Tem ainda crônicas publicadas nos jornais O Labor (Jequié), A Cidade (Olímpia, SP) e O Tatuapé (SP), O Avaré, Nossa Terra, Expressão e O Periscópio. Membro da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT)

Discussion - 2 Comments
  1. Clovis Panzarini

    jul 26, 2013  at 9:31 am

    Muito boa, Lae’. Passo amiúde por situação análoga ‘a do seu personagem. E não aparece ninguém para dizer que o infeliz e’ maluco… Parabéns.

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  2. Alexandre

    jul 26, 2013  at 9:31 am

    Bom, acho que sou um pouco mais novo que vocês (42), e com a idade fica mais difícil lembrar de tudo. Mas tinha esse problema de esquecer nomes. Até que, lendo uma matéria a esse respeito na Veja, enquanto aguardava no consultório dentário, aprendi uma técnica. Para fixar o nome de uma pessoa, faça uma associação da imagem dela com outra pessoa que você conheça e que tenha o mesmo nome. Por exemplo, imaginem uma pessoa que você conheçe hoje e que acha importante gravar o nome. Essa pessoa, hipotéticamente, se chama João. Como não esquecer ? Fixe aquela pessoa ao João, aquele porteiro do seu prédio … Ou, ao João do Pulo, atleta brasileiro famoso. Ou seja, faça essa vinculação, assim, ao reencontrar o cidadão por ai, já vem a mente: esse é o … João (porteiro ou do pulo) e está tudo bem. Difícil fazer isso com todo mundo, mas já reduz os perrengues…

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