Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

Atendendo a pedidos. Mas há quem diga que em breve será recolhido. Daiane foi visitá-lo na delegacia e não o encontrou. Um investigador simpático disse que o elemento ficou detido por uma semana, para averiguação, mas como tinha residência fixa e o caso era meio complicado, conseguiu uma ordem de soltura provisória.

— O senhor saberia informar onde posso encontrá-lo?

— Ué, você disse que é amiga do marginal e não sabe onde ele mora?

— Não é que sou amiga…. Na verdade, sou fã dele.

— Fã daquele lixo?

— Dos raps dele.

— É disso que estou falando. Ele só produz esterco. Fala mal da polícia e de todo mundo. Para ele ninguém presta, só os bandidos.

— Ele faz arte engajada, é artista da periferia.

— Arte engajada o cara…ca. Só sabe chafurdar nas rimas. A arte dele está aqui, ó, no Código Penal — o investigador bateu três vezes na capa de um livro que parecia a bíblia.

— Eu só queria um autógrafo dele. Será que o senhor não poderia me emprestar o endereço do… do elemento?

— Emprestar…!? Moça, endereço de gente que não presta a gente não empresta.

Ela sorriu e o investigador quis saber se estava tirando uma da cara dele.

— Não, é que gostei do trocadilho.

— Gostou, é? Mmm. Qual é o seu nome?

— Daiane.

— Daiane…! Nome de princesa numa miss. Tudo bem, Daiane, vou tentar quebrar o seu galho. Espera aí.

O policial sumiu num corredor. Voltou dez minutos depois, anotara o endereço do réu no verso de um cartão pessoal dele próprio.

— Se tiver algum problema com o cafajeste, ou se quiser conversar comigo sobre qualquer outro assunto, o meu celular está aí.

— Obrigada, o senhor é muito gentil.

Se antes Daiane estivera em dúvida sobre a visita, temendo que alguém suspeitasse dela, afinal tivera três encontros com o acusado e era operadora de caixa como as outras setenta e sete fichadas no inquérito, agora, ao sair da delegacia, arrependia-se completamente. Não tanto pelo risco de que a incluíssem no rol das suspeitas, pois nada fizera de errado, mas porque estava se expondo à toa, não teria coragem de ir à casa dele. Visitar um preso na cadeia é uma coisa, quase um dever de solidariedade, principalmente se a visitante já teve algum contato imediato de primeiro grau com o dito-cujo, se já lhe mostrou a rosa e as borboletas tatuadas na área restrita, mas ir à casa dele, que ela nem sabia onde ficava, era atrevimento, intromissão, bisbilhotice, ele podia se sentir tripudiado, ou o oposto e muito pior: achar que ela estava caidaça por ele e então fazer dela gato e sapato. Além do mais, por que pedir o endereço, se o telefone dele já constava na memória do celular dela? Foi pura burrice, ela admitia para si mesma.

— Mas, afinal, telefono ou não telefono? — ela se perguntava, a caminho do metrô.

Alguém poderia estranhar a hesitação de Daiane, eis que ela repudiara o rapper, ao saber de suas intenções perniciosas, e o alertara de que poderia se dar mal. Estaria agora fraquejando, sensibilizada pela prisão? Será que estava tendo uma recaída? Por que titubeava?

Se o autor desta crônica fosse Machado de Assis, a resposta estaria na ponta da pena, no título de um polêmico ensaio satírico, Queda que as mulheres têm para os tolos, embora a rigor o bruxo de Cosme Velho fosse apenas o tradutor; o original, de 1858, é do belga Victor Hénaux: De l’amour des femmes pour les sots. Mas é inegável que o nosso maior escritor gostava do tema, tanto que escreveu Desencantos, uma adaptação teatral daquele ensaio. Queda separa em dois grupos os homens: os de espírito e os tolos. Já as mulheres são apenas mulheres, como se dentre elas não houvesse as de espírito e as tolas. As mulheres se identificariam mais com o segundo grupo masculino, o dos tolos, porque seriam muito semelhantes, teriam afinidades. O texto deixa implícito que as mulheres são todas pacóvias. É uma generalização satírica, provocativa e certamente datada, não há dúvida. O autor chega a sugerir que os homens de espírito, para conquistar as mulheres, aproximem-se delas imitando os tolos. É de um sarcasmo hilariante. O machismo da época se divertiu muito com o polêmico texto.

Mas se já naquele tempo o título causou controvérsia, imagine-se agora. No último século e meio muita coisa mudou nas relações humanas. Evoluíram as mulheres e evoluíram os tolos. Não só em quantidade, sobretudo em qualidade. Elas, que antes só atuavam em cozinhas, tanques, pias, costuras e bordéis, agora estudam, trabalham fora, dirigem governos, empresas, sindicatos, ONGs e até quadrilhas. Fazem regime, depilam-se, tomam pílula, mascam chiclete, passam boa parte do sábado no salão de beleza, e largaram no museu aqueles vestidos aramados que dificultavam o acesso, hoje mostram as pernas e o intelecto com muito mais fluência. Se bem que nem tudo são flores nesse terreno: agora elas também fumam e bebem muito mais, cheiram e se picam, praticam poligamia e são multadas por excesso de velocidade tanto quanto ou até mais que os homens. É uma tremenda mudança no comportamento, não dá nem para comparar com a mulher do século XIX.

Quanto aos tolos, nem se fale, tornaram-se muito mais ecléticos. Além dos genéricos, ou simplesmente simplórios e escrachados, que sofrem de uma espécie de idiotia atávica, há uma série de outros por aí. O grupo dos babacas masoquistas, por exemplo, conseguiu a proeza de evoluir para a pré-história: furam beiços, sobrancelhas, narizes, línguas e outras protuberâncias. Em tempos de edição eletrônica, transformam a pele do próprio corpo em pergaminho, com a diferença de que este era inerte, curtido, não doía (exceto no carneiro, na hora do abate, era escalpelado depois) nem exigia perfurações no dono da obra. Além do mais, os pergaminhos duram séculos, já a pele humana do ilustrado defunto se deteriora se ficar uma semana fora da geladeira ou do formol. Sem contar que são figuras copiadas de catálogos.

O grupo dos tolos insalubres também merece umas linhas. É integrado pelos que instalam alto-falantes ensurdecedores em porta-malas de veículos, abrem vidros e portas a fim de espalhar milhares de decibéis de mau gosto a prova de som e de tímpanos. Nesse mesmo grupo estão os que cheiram, bebem, fumam e picam tanto quanto ou mais que farmacêuticos e anestesistas, embora estes o façam por dever de ofício e aqueles por mera tolice.

Mas não se pense que todos os tolos ficaram mais tolos do que eram. Há os que ficaram mais espertos, no pior sentido do adjetivo. São os tolos matreiros, que ocupam o espaço dos antigos contistas do vigário e dos bons malandros (se bem que estes jamais deixaram de existir, pois a miopia da mente da humana é perpétua). Os tolos matreiros são especialistas em trambiques, tretas e mutretas. Em geral, são mais sutis e atuam em zonas nebulosas. Há quem diga que o termo tolo não se lhes aplica, quando muito poderiam ser acusados de praticar o chamado capitalismo sem escrúpulos, eis que agem a favor do interesse próprio, visando maximizar lucros, ainda que em prejuízo do erário ou de terceiros, mas, com o devido respeito, essa é uma interpretação discutível, pois os tais prejudicados são, em suma, a coletividade, a sociedade da qual eles próprios fazem parte, de modo que quando a atingem estão ferindo a si mesmos, ainda que a dor não seja imediata: é menos segurança, educação, ambiente, etc. Eles não percebem isso, eis a tolice.

Por outro lado, os chamados homens de espírito estão em franca decadência, quase em extinção. Talvez seja preciso criar uma ONG para preservá-los, como a da onça-pintada, a do mico-leão-dourado ou a do gavião-carcará.

A propósito, foi exatamente este o tema da conversa telefônica entre Daiane e Maciel, o famigerado Gavião. Ele disse que aprendera muito na gaiola, e agora estava planejando a criação de uma série de ONGs maneiras, um projeto social fabuloso.

— Vem nessa comigo, princesa. Tenho sentido tanto a sua falta. Preciso de alguém com a cabeça limpa do meu lado.

Não percam o leitor e a leitora machadianos, que de tolos não têm nada (bem sabem das ambiguidades e sutilezas do Dom Casmurro), a resposta de Daiane, na próxima crônica.

Leia as crônicas anteriores:

Engaiolaram o Gavião

As garras do Gavião

O CPF do Gavião

Discussion - 2 Comments
  1. marielfernandes

    jul 27, 2013  at 12:01 am

    Na listinha dos “tolos insalubres” cabem bastante nomes, mesmo para o nosso Machado.

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  2. Antônio Sérgio Valente

    jul 28, 2013  at 12:01 am

    Caro Mariel Fernandes:
    Não conheço nenhuma história de tolo insalubre vivida pelo próprio Machado de Assis. Mas se você souber de alguma, por favor nos conte. Tenho interesse particular na vida e obra dele.
    Lembrando que o grupo dos tolos insalubres, segundo a crônica, “É integrado pelos que instalam alto-falantes ensurdecedores em porta-malas de veículos, abrem vidros e portas a fim de espalhar milhares de decibéis de mau gosto a prova de som e de tímpanos. Nesse mesmo grupo estão os que cheiram, bebem, fumam e picam tanto quanto ou mais que farmacêuticos e anestesistas, embora estes o façam por dever de ofício e aqueles por mera tolice.”
    Você estaria insinuando que o Machado se picava ou cheirava ou fumava…? Não conheço esse dado da biografia dele. Sei que ele sofria de epilepsia. Isto sem dúvida é uma insalubridade, mas não é tolice.
    Abraço e obrigado pelo comentário.

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