Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

Quando Maciel, o Metafórico, disse a Daiane, por telefone, que precisava de alguém com a cabeça limpa do lado dele, ela ficou em dúvida se ele queria uma garota sem nada na cabeça, limpinha da silva, uma folha em branco, ou se buscava alguém com valores morais e um mínimo de bom senso.

— Não, princesa, quero alguém com a cabeça limpa mesmo, exatamente como a minha está agora, neste exato momento.

Falavam por telefone, de modo que ela não sabia exatamente o que aquele exatamente queria dizer. Se o visse, saberia que ele pegara piolho na prisão e teve de raspar a cabeça com máquina zero. Estava sem um fio de cabelo. A cabeça limpa. Pelo menos for fora.

Marcaram encontro num ponto de ônibus, a duas quadras do Broa de Mel, ele não queria prejudicar a reputação dela no trabalho. Sim, ele ainda tinha a Pajero vermelha, embora talvez tivesse de vendê-la para pagar o advogado. Aliás, este é um mal que costuma acometer os tolos: quase sempre dançam nas mãos dos advogados.

— Não quero mais saber daquela história de CPF na nota, princesa. Aquilo foi burrice, você tinha razão. Dei bandeira. Agora o lance vai ser diferente.

— É isso, Maciel, você tem tudo para vencer na carreira. É boa pinta, sabe das rimas, é investir nisso e bola para frente. O rap está na sua pele, cara, você tem vocação para isso.

— É… Você acha mesmo? Andaram me espinafrando por aí. Fiquei meio down.

— Inveja. Não esquenta.

— É… Preciso agitar esse lance de vocação, mas vou precisar de grana, princesa, muita grana. Bolei uma jogada que não tem como dar chabu. Acompanha o raciocínio.

Maciel tirou do bolso umas anotações e descreveu o plano. Criaria uma série de ONGs filantrópicas e ecológicas, imbuídas de preservar gaviões, borboletas e carpas douradas; estimular a formação de goleiros e skatistas; combater mutucas, piolhos e carrapatos; etc.

— O que acha?

— Abrangente. Você que bolou?

— É… Eu e um passarinho que estava lá na gaiola comigo.

— Posso dar uma olhada?

Podia. O título era: Entidades Philantrópicas.

Philantrópicas, Maciel?

— É, como antigamente. Ph tinha som de pff, que virou ff. Entende? Pharmácia… Graphia… Até o Machado de Assis escrevia assim.

{A propósito, dia desses, uma leitora insurgiu-se contra o autor desta crônica, entendendo como mal-intencionados, discriminatórios e machistas (não de Machado, mas de macho) os comentários que fizéramos acerca de um suposto (sic) ensaio atribuído à bibliografia machadiana, e formulou a acusação de que teríamos inventado a obra com o objetivo covarde de atribuir a outrem reflexões de mau gosto da nossa própria lavra. Rogamos à leitora não nos denunciasse ao Procon, em que pese inexista o Código de Defesa do Leitor, sugerido por ela, que viria em boa hora, etc. Ela é daquelas mulheres de ideias, que argumentam bastante, em breve talvez postule uma cadeira em alguma câmara, assembleia ou sindicato.

Como os personagens da crônica criticada são os mesmos desta, convém esclarecer o caso. A leitora se referia ao ensaio Queda que as mulheres têm para os tolos. Não a culpamos pelas pedras que atirou. Fez bem. Quem escreve o que quer, lê o que não quer. Ademais, a autoria do tal ensaio já causou problemas a muita gente. No Brasil, foi publicado na revista A Marmota, em capítulos, de 19 de abril a 03 de maio de 1861, sem mencionar a autoria do belga Victor Hénaux, como se nascera mesmo da pena do então iniciante Machado de Assis, embora este fosse apenas o tradutor. É que não era habitual, naquela época, que jornais e revistas mencionassem o nome do autor e o do tradutor. Mais ou menos como as emissoras de rádio de hoje que omitem os nomes dos compositores e citam apenas os dos intérpretes. Mas não havia usurpação de autoria nem plágio, tanto que, ainda em 1861, em face da grande repercussão na revista, o texto virou livro (editado pela tipografia de Paula Brito), já então com os nomes do autor e do tradutor.

Apesar da exatidão editorial, alguns biógrafos deduziram que o autor belga não passava de personagem inventado pelo bruxo de Cosme Velho; para servir-lhe de escudo às críticas femininas (ainda não se falava em feministas), eis que as mulheres de fato não gostaram nada daquelas reflexões na revista, sentiram-se ofendidas, onde já se viu, esse rapaz não teve mãe? Os biógrafos então inferiram que Machado se escondera como tradutor, embora fosse autor. Esta tese ganhou pernas, vários estudiosos da obra machadiana incluíram o texto em sua bibliografia, como original e não como tradução. Mas depois se provou que estavam equivocados, pois o belga existiu de fato e o original em francês está bem guardado na Biblioteca Britânica, em Londres.

Se algum outro leitor tiver dúvidas a respeito, aqui vão os dados da obra: De l’amour des femmes pour les sots, deVictor Hénaux, tradução de Machado de Assis, Typografia F. de Paula Brito, 1861. E para que não se pense que esta nota é mero gracejo do cronista, consulte-se também a edição crítica de Queda que as mulheres têm para os tolos, de Ana Cláudia Suriani da Silva, Unicamp, 2008. Feito o esclarecimento, voltemos à crônica.}

— É que você não é desse tempo — Maciel referia-se ao ph com som de f.

— E você por acaso é?

— Não, mas já trabalhei num sebo.

— Num sebo…? Que legal. Fazia o quê?

Enquanto ele listava as suas mil e uma utilidades, ela refletia sobre o título. Tudo bem que o ph tivera som de f, mas o h de algumas palavras é neutro, como hoje e hora, por exemplo. Um trocista como ele podia ter escrito com esta segunda intenção. Neste caso, philantrópica seria uma gíria a adjetivar a pilantragem tropical. Ela se perguntava se não estaria exagerando: o coitado com a melhor boa vontade e ela fazendo mau juízo…

— Como seriam as tais ONGs, Maciel?

— Legais, tudo preto no branco: registro em cartório, CNPJ, etc.

— Sim, mas de onde viria o dinheiro para cobrir as despesas?

— Da sociedade, ué. Os interesses são de todos.

— Você acha que vai ser fácil conseguir os recursos?

— Tudo na vida dá trabalho, princesa. Nem no Bom Prato o almoço é grátis.

— Já sei, você vai compor um rap para cada ONG e cantar em ruas e praças como se fosse um jingle, pedindo donativos, é isso?

— Para dizer a verdade, não pensei nessa abordagem, mas é uma boa sugestão. Estava imaginando uma estratégia mais simples: lembra aquela história do CPF na nota?

— Claro, você acabou de sair do xilindró por causa daquilo.

— É que eu estava obnubilado, princesa. Mas agora clareou.

— Já sei, você vai pedir cupons como donativos, instalar urnas na frente dos caixas, cantar em praças de alimentação de shoppings, em ruas de grande movimento e…

— Não, princesa, pode parar, isso dá muito trabalho. O meu plano é mais simples.

Ela ficou muda, estava com receio de pedir detalhes, mas ele fez questão de explicar:

— O passarinho que conheci lá na gaiola é hacker. Ele sabe tudo de computador. E como no caixa do tal programa de cidadania tem três bilhões que ninguém foi sacar, a maioria nem cadastrou a senha, a gente vai canalizar um tiquinho dessa verba para as ONGs.

— Canalizar como, Maciel?

— É um truque simples: quem não tem senha, a gente cadastra e faz a doação.

— Quer dizer: vocês vão desviar a grana dos consumidores.

— Desviar não, princesa, que ela nem foi enviada. Está lá esquecida.

— Três bilhões esquecidos…!?

— Parece incrível, mas é a mais pura verdade. Vem nessa comigo?

Enquanto Daiane decide, registre-se que esta crônica é mera ficção, mas a semelhança com a realidade não é mera coincidência: os R$ 3 bilhões não sacados constam na estatística da NF Paulista, e o caso das senhas e ONGs está sob investigação. Lamentavelmente, além de desperdiçar recursos, o programa gera esse tipo de (b)ônus criminoso à cidadania.

Leia as crônicas anteriores:

Libertaram o Gavião

Engaiolaram o Gavião

As garras do Gavião

O CPF do Gavião

Discussion - 4 Comments
  1. TeoFranco

    ago 03, 2013  at 12:01 am

    Valente, esta crônica fecha a série com chave de ouro. Muito didáticas e, ao mesmo tempo, divertidas. Serve tanto para que seja revisto esse famigerado programa destinado à educação e “à cidadania”, mas também, à reflexão pessoal sobre ética e moral, tão judiada nos dias de hoje, com raros exemplos vindos, especialmente, da Corte Brasiliense. Parabéns!!! Aguardo ansiosamente pela próxima série…

    Responder

  2. TeoFranco

    ago 04, 2013  at 12:01 am

    Corrigindo: esta é a penúltima crônica (que bom!), portanto, aguardemos o grand finale da série.

    Responder

  3. Antônio Sérgio Valente

    ago 11, 2013  at 12:01 am

    Caros Mariel, Teo e demais companheiros:
    Por ora, a mais recente crônica desta série é A REVOADA. É a sexta da série. São episódios ficcionais, mas baseados em fatos da vida real.
    Infelizmente, a NF Paulista, além de DESPERDIÇAR R$ 8,3 bilhões em 5 anos, propiciou também a prática de novos delitos, alguns inclusive envolvendo ONGs.
    Com os R$ 8,3 bilhões o Estado de São Paulo poderia ter construído mais ou menos 40 km de linhas de metrô (ao custo de R$ 200 milhões por Km, que é o histórico). Ou seja, o Estado de São Paulo jogou fora um MINI ANEL METROVIÁRIO com o Programa da NF Paulista. E jogou fora devolvendo tributo em grande parte à elite e à classe média alta, que são as que mais compram. Você compra um carro novo, toma um vinho de US$ 500, vai à loja de departamentos e compra uma tv de 72 polegadas, vai ao supermercado que sempre, antes mesmo da NF Paulista, costumava lhe entregar normalmente a nota ou o cupom fiscal, mas agora tudo isso lhe gera restituição de ICMS e prêmios. É a BOLSA-ELITE do governo paulista.
    Repito:> R$ 8,3 bilhões!!!! jogados fora com o pomposo nome de “estímulo à cidadania”, embora a rigor não passe de um programa que tenta comprar a consciência do cidadão com uma conversinha mais ou menos assim: pede para pôr o seu CPF na NF, que eu te dou de volta uma graninha. Isso há quem entenda que é formação de consciência. Mas será que isso forma ou DEFORMA as consciências?
    Há evidências de que forma, sim, a ‘cidadania’, mais ou menos essa dos Gaviões e dos Ded Uindous da vida (este personagem está na crônica A REVOADA).
    E o pior é que esses episódios são de fato verdadeiros (embora os personagens sejam totalmente ficcionais). Mas casos semelhantes foram noticiados pela imprensa e estão sendo investigados realmente.
    Quanto aos R$ 8,3 bilhões ainda não… Mas constam nas estatísticas do site http://www.fazenda.sp.gov.br > NOta Fiscal Paulista > Dados do Placar. Como é imposto “legalmente” devolvido aos donos do poder, acrescido de prêmios, parece que todos aceitam na boa. É um desperdício, digamos assim, legalizado… É um ralo oficial. É uma alocação de recursos que ninguém questiona. E a população que anda espremida nos trens do metrô, parece que ainda não se deu conta do nexo entre a lotação e esse desperdício. É um nexo remoto, ninguém nota, quem não gosta de imposto que volta? Deixa vazar…
    Bem, se isso é governar bem, então parabéns.
    A propósito, embora com atraso, parabéns a todos nós, pais, e felicidades muitas e muitas e muitas aos nossos filhos. Que o futuro deles não seja tão surrealista como o nosso presente está sendo.

    Responder

Leave a Comment