Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

Nos evangelhos constam várias cenas tributárias. Algumas transmitem um certo carinho de Jesus Cristo pela classe fiscal. Carinho que lhe custava algum incômodo, pois os publicanos, agentes fiscais do Império Romano (que então dominava toda a Palestina), eram mal vistos pela população local, tanto pelos judeus como pelos gentios. Em parte porque o dominado, o avassalado, geralmente nutre uma antipatia natural contra o dominador. Os publicanos, servidores do poderio romano, já por este motivo, por servirem ao opressor, eram hostilizados. Mas o motivo principal da antipatia talvez fosse a função que exerciam: eram incumbidos de cobrar tributos, que desde aquela época, e seguramente muito antes e muito depois, ninguém gostava de pagar. A ojeriza pelo pagamento de impostos é algo mais ou menos atávico, faz parte da natureza humana. O cidadão paga não por disposição, mas por imposição. Daí o nome: imposto.

Os publicanos faziam plantões no telônio, que era uma espécie de mesa ou banca de arrecadação. O telônio podia ser comparado aos guichês das coletorias de quatro décadas atrás, quando as guias não eram pagas em agências bancárias, mas diretamente às repartições. O telônio era, portanto, uma espécie de posto fiscal ou coletoria da época.

Era ali, no telônio, que o publicano, digo, o agente fiscal, atendia a clientela, digo, os contribuintes. Havia muitos rumores sobre as transações nebulosas que ali se faziam. Os publicanos eram acusados de pecadores por praticar ora a escorcha, ora a chatinagem (palavra que quase ninguém mais pronuncia, embora o seu significado esteja mais vivo do que nunca: é a negociata, o acerto, a mancomunagem). Os rumores eram à boca pequena, pois havia o temor de alguma represália e também o interesse da outra parte, que não raramente levava algum tipo de vantagem nas tratativas. Estas podiam ser de vários tipos, eis que também os tributos incidiam sobre vários itens.

Havia, basicamente, dois tipos de tributos: um per capita, que era chamado de capitação, e outro ad valorem. Este era sem dúvida o mais importante. Mal comparando, corresponderia a um misto de IPTU, IPVA, ISS, ICMS, IPI e IR sobre ganhos de capital, embora não tivesse as características particulares de nenhum desses impostos. Incidia sobre mercadorias e propriedades de quaisquer espécies, e a base de cálculo era estimada. O publicano levantava os bens que o cidadão possuía, as casas, as carroças, os arados, os celeiros, os teares, os rebanhos, as terras, as áreas plantadas com legumes e cereais, as árvores frutíferas, os pés de uva, de figo, de damasco, de azeitona, as barricas de vinho e de azeite, os fardos de tecidos, as sacarias, as joias, até mesmo os barcos e a estimativa de pesca entravam na lista. As toras derrubadas e estocadas pelos carpinteiros, as pranchas aplainadas ou não, os utensílios e as ferramentas, as ferraduras, os martelos, os machados, os punhais, as facas — nada e ninguém escapava das garras do Império Romano. De modo que o poder do publicano era imenso. E exatamente por isso era temido e odiado. Convidado o tempo todo a chatinar, a reduzir as listas de tributáveis, em seguida era tachado de pecador pelos mesmos cidadãos com quem chatinara.

O publicano vivia na corda bamba, estava sempre entre a cruz e a espada (aliás, também estas entravam no rol de incidência). De um lado, judeus e gentios não queriam entregar o suor de seu corpo e o fruto de seu trabalho ao governo romano, o opressor. De outro, o rei aliado ao Império queria extrair da área dominada a maior riqueza tributária possível. No caso da Judeia, da Idumeia e da Samaria do tempo de Cristo, a última palavra era do procurador do império, Pilatos, eis que o rei aliado, Arquelau, filho de Herodes, o Grande, caíra em desgraça junto a Roma e fora deposto.

De vez em quando havia demonstrações de força contra comunidades que se esquivavam de cumprir a lei romana ao pé da letra, para incutir medo e pôr os revoltosos e sonegadores em seus devidos lugares. Contam os historiadores que, durante a infância de Jesus, teria ocorrido a matança pelos romanos, por crucificação, de dois mil habitantes da cidade de Sépforis, que era vizinha a Nazaré e era a capital econômica da Galileia, pois ficava em plena encruzilhada da rota das caravanas que ligava, no sentido leste-oeste, o Mar Mediterrâneo à região de Tiberíades, nas margens do Mar da Galileia (ou Lago de Genesaré ou de Tiberíades, conforme o chamavam os historiadores e os evangelistas). A rota derivava, logo após Sepfóris, para o rumo norte, passando por Tiberíades e Magdala, bem perto de Cafarnaum e Corazim, no sentido de Damasco, ou então para o sul, para a região do fértil vale do Rio Jordão, até Jericó, e daqui a Jerusalém era não mais que uma jornada, daí a sua importância comercial. As cruzes da matança foram fincadas nos dos dois lados da estrada, antes e depois de Sépforis, para servir de exemplo às caravanas que por ali passavam, com mercadorias de importação, exportação e para consumo local.

Dentre os publicanos havia um, Mateus, que trabalhava no telônio de Cafarnaum, cidade que se situava na margem norte do Mar da Galileia. Jesus morou algum tempo ali, na casa de um pescador chamado Simão, a quem atribuíra o nome de Cefas (Pedro), e que se tornaria o primeiro papa da Igreja.

Cafarnaum foi cenário de dois episódios tributários, narrados exclusivamente por Mateus, o referido publicano que atendia no telônio. O primeiro foi a conversão dele próprio, Mateus. Aquele fora um dia exaustivo para Jesus. Passara para a outra margem do Mar da Galileia, a fim de livrar-se da multidão que o seguia em Cafarnaum, e fora ter em Genesaré (ou Gergesa), na região dos gadarenos ou genesarenos. Lá, expulsou para uma vara de porcos os espíritos malignos de dois possessos que habitavam em sepulcros; eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquela trilha. Os animais endemoninhados precipitaram-se no mar e morreram. Ao saber do ocorrido, os habitantes locais pediram a Jesus e seu grupo que se retirassem daquela região, para não causar outros prejuízos do mesmo tipo. Então, ante o contratempo, Jesus retornou ao barco, atravessou de volta o Mar da Galileia, em regresso a Cafarnaum. Em terra firme, perdoou os pecados de um paralítico e por isto foi acusado de blasfêmia pelos escribas locais, houve um diálogo mais áspero, mas o fato é que o paralítico se levantou do catre e saiu andando.

Ao sair dali, provavelmente já muito cansado, não só por causa da longa jornada, um dia inteiro de navegação, mas também pelas críticas que tivera de ouvir e replicar, talvez já com alguma fome, Jesus avistou um homem chamado Mateus, sentado ao telônio, e disse-lhe: “Segue-me!” (Mt 9,9)

E Mateus o seguiu. Foi uma conversão súbita. Jesus sabia o que se passava no coração daquele homem, e tinha certeza de que poderia contar com ele.

Ao anoitecer, encontrando-se à mesa, na casa de Mateus, numerosos publicanos e pecadores vieram e sentaram-se com Ele e seus discípulos (Mt 9, 10). Note-se que Jesus estava à mesa com numerosos publicanos — estas palavras são canônicas. Era a happy hour da época. Não era um agente fiscal ou dois, mas vários. Amigos de Mateus, por certo. Jesus apreciava estar à mesa com eles, com esse grupo de cobradores de impostos. Sabia que viviam entre a cruz e a espada, até literalmente, mas também na metáfora: viviam entre a própria consciência e a lei. Deviam satisfações às autoridades romanas, tinham de prestar-lhes contas, e, ao mesmo tempo, tinham de ser maleáveis, pois sabiam o que se passava com os judeus e gentios oprimidos, conheciam-lhes as dificuldades, intenções e esquivas. E certamente ouviam propostas… Tinham de administrar aquela situação de alguma forma. Eram homens mal vistos, difamados, acusados de escorcha, ou pior ainda, de chatinagem, corrupção. Jesus sabia das tentações, da resistência e das quedas de muitos daqueles homens. E mesmo assim sentava-se com eles à mesa, tranquilamente.

Aquilo era um escândalo. Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: “Como é que o vosso Mestre come com publicanos e pecadores?” Jesus ouviu e respondeu-lhes: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: ‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’. Porque não vim chamar os justos, mas os pecadores.”(Mt 9, 11-13; Jesus cita Oseias, em Os 6, 6).

Observe-se que o narrador da cena é o próprio Mateus (discípulo, apóstolo, evangelista), testemunha ocular da história. É ele próprio que se inclui no rol dos publicanos e pecadores.

E foi também em Cafarnaum que ocorreu outro episódio tributário interessante. Mas este, tenha o leitor a santa paciência, fica para a próxima crônica.

Discussion - 4 Comments
  1. domingos savio

    dez 25, 2013  at 11:15 am

    Gostei muito da Cronica.
    Parabens!

    Savio(sefaz-pe)

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  2. Antônio Sérgio Valente

    dez 26, 2013  at 11:15 am

    Salve, São Domingos Salvio.
    Obrigado.

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  3. Antônio Sérgio Valente

    dez 26, 2013  at 11:15 am

    Errata:
    Salve, “são” Domingos Savio.
    Obrigado.

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  4. Marcos Vinícius

    jan 01, 2014  at 11:15 am

    Parabéns pela crônica e viva Jesus!

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