Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

Daiane hesitava se devia ou não aceitar a proposta do rapper Maciel, o Metafórico, alcunhado de Gavião. A ideia de dirigir uma ONG cujo objetivo seria a defesa da arte periférica, oferecendo à juventude carente cursos e oficinas de rap, grafite e tatuagem, pareceu-lhe fantástica, e ela quase disse estou nessa. Mas ao saber que no mesmo endereço, um cubículo de 3×4, estariam sediadas várias ONGs, com números fictícios de salas, ela começou a desconfiar de outro ataque do Gavião. Fez umas perguntas e percebeu que o interesse principal era receber, na conta bancária das entidades, donativos do programa de estímulo à cidadania, a Nota Fiscal Paulista.

Desta feita, a equipe (eufemismo empregado por Maciel, mas na verdade significava bando) seria bem menor que a do outro golpe, não envolveria um enxame de integrantes. As 77 operadoras de caixa seriam dispensáveis, bastariam meia dúzia de aliadas, uma encabeçando cada ONG e as demais nas diretorias e conselhos. O rapper e um hacker que ele conhecera nos poucos dias em que esteve engaiolado (que lhe valeram como uma espécie de curso de especialização na arte de rapinar) seriam os pilares do esquema.

Maciel ficaria no operacional da verossimilhança, nas fachadas, na criação das entidades fictícias, no recrutamento das promotoras de cidadania (outro eufemismo), na papelada, enfim, na direção executiva. Já o hacker, cujo nome era Odélio, mas atendia pelo vulgo de Ded Uindous, era o talento informático do bando. Dominava sofisticadas técnicas de invasão de bancos de dados, inclusive do setor público. Foi facílimo para ele descobrir quais eram os CPFs com créditos da Nota Fiscal Paulista à disposição, para os quais não havia senhas de acesso cadastradas. Eram recursos que dormiam placidamente no fundo do erário.

A dupla apurou que inúmeros consumidores indicavam por indicar o CPF, mas não tinham noção do significado. Alguns sequer manejavam os instrumentos de acesso à internet. Outros sabiam o que estavam fazendo, mas eram tão abonados que negligenciavam as quireras prometidas pelo governo. Havia também o grupo dos éticos convictos, os que se recusavam a indicar o CPF por respeito ao dinheiro público, por entender que tributo bom é o que volta à sociedade em forma de obras, serviços, educação, saúde, etc, jamais como bolsa-elite. E havia ainda o oposto, o grupo dos antiéticos convictos: não indicavam o CPF por razões imorais ou amorais, torpes, por omissão de receitas, sonegação, por não terem como explicar os gastos que faziam. Porém, mesmo nestes dois últimos extremos, quer dizer, mesmo sem optar pela inserção do CPF nas compras, constava lá no erário um bom dinheiro à disposição de tais consumidores, eis que em alguns tipos de compras o CPF é inserido obrigatoriamente, ainda que o cidadão não opte pelo programa, como no caso de automóveis, eletrodomésticos, equipamentos em garantia, materiais de construção e mobília mediante crediário ou entrega futura. O recurso estava lá, às vezes até encorpado por prêmios, porém o beneficiário sequer aderira ao programa, não por displicência, mas por convicção mesmo, ética ou antiética.

— Não é possível. O sujeito não quis participar e mesmo assim o governo põe a grana à disposição dele? E a grana fica lá parada, dormindo, com tanta gente embaixo de ponte?

— Captou, princesa, é isso aí.

A situação era tão surreal que por um momento Daiane chegou a hesitar se devia ou não integrar o esquema. Afinal, um governo que age com tamanha tolice, que devolve imposto legalmente pago, que podia virar escola, creche e hospital, que podia atender a demandas sociais nobres, que podia ser útil de fato à sociedade, merece uma reprimenda à altura. Um governo que devolve imposto em grande parte à elite e à classe média alta, que são as camadas sociais que mais compram, que têm casas, apartamentos, sítios e fazendas de encher os olhos, e até carrões importados e blindados, isto para não falar de aviões e iates luxuosos, que são exatamente as pessoas que menos precisam da devolução do imposto devidamente pago, que estudaram nas melhores escolas e sabem tudo de cidadania, não precisam de mais estímulos, e pior ainda, um governo que se dispõe a devolver imposto constitucionalmente recolhido — e que dá prêmios…! — a quem sequer aderiu ao programa, meu Deus do céu, é de uma cretinice tão atroz que merece mesmo o ataque de um gavião qualquer da vida.

Naqueles dias, Daiane vinha estudando — nuns livros que comprara num sebo da Praça João Mendes — Direito Tributário, Constitucional e Administrativo, para um concurso de nível médio do governo federal, de modo que estava bem enfronhada no assunto. Um governo, ela refletia consigo mesma, que distorce de modo tão absurdo a função social do tributo, que dá, no próprio programa de estímulo à cidadania, exemplo tão lamentável de má gestão do dinheiro público, cá entre nós, está implorando para que a sociedade lhe dê uma resposta à altura.

Daiane pensou tudo isso em meia hora de lucidez e revolta, e, num minuto de fraqueza, quase adere à proposta que Maciel lhe fizera, de encabeçar a tal ONG de fachada. Só não o fez não porque o governo não merecesse, mas porque, no exato instante em que ia dizer sim, lembrou-se de uma frase que a mãe pobre, mas nobre, incutira-lhe na mente, quando ainda era bem menina, ao vê-la esgoelar-se de chorar pela posse de uma boneca sonora que pertencia à prima: só leva para casa o que é seu.

— Não, Maciel, não posso ficar com o que não me pertence.

— Nem com o que acha na rua? Achado não é roubado na porta do mercado — ele musicou.

O velho ditado, ela não podia negar, revogava em parte a instrução da mãe. Hesitou novamente. Maciel percebeu a brecha e começou a explicar os detalhes da tramoia: Ded Uindous invadira o banco de dados da Secretaria da Fazenda, relacionara os CPFs que hibernavam, sem senha nem nada, estava levantando no site da Receita Federal os nomes dos titulares, criaria e-mails em provedores gratuitos, acordaria os dorminhocos com senhas que ele próprio inventaria, e então faria as supostas doações para as ONGs.

— Vai ser barbada — o rapper garantiu a Daiane.

Foi então que, apesar de caidaça por ele, Daiane demonstrou que de tola não tinha nada, e que a tese satírica de Victor Hénaux, traduzida por Machado de Assis, em Queda que as mulheres têm para os tolos, citada em crônica anterior desta série, era bobagem: o tolo, quando tira a máscara e exibe a tolice, é repelido pela mulher que tinha queda por ele.

— Vocês não estão se apossando de algo achado na porta do mercado, mas de algo violado e desviado — ela disse. — Isso é fraude, é roubo, é sacanagem.

Maciel, o rapper, e Ded Uindous, o hacker, não eram tolos do grupo escrachado, que assaltam lojas de conveniência e sorriem para a câmera, clonam cartões bancários e transferem valores para a conta de um parente ou até para a própria, matam pais e avós para antecipar a herança e depois tiram férias na cadeia, nada disso. Eram tolos da estirpe matreira, dos golpes sutis, eletrônicos e nebulosos. São da mesma confraria dos que inventam evasões legais ou ilegais quase inacreditáveis. Têm a mesma plumagem dos que vendem placebos como se fossem panaceias, inventam milagres e cobram dízimos exorbitantes, blindam patrimônios com técnicas que cheiram a fraude contra credores, e alguns, mais recentes, cometem simulacros com o pomposo nome de planejamento tributário estratégico.

Certos governantes costumam ser os principais aliados involuntários dos tolos matreiros, pois quanto mais complexidade inserem na legislação, quanto mais caóticos tornam os sistemas, mais flancos abrem para o deleite abusivo.

Uma lei bem elaborada, sem tolices, pode transformar a consciência de um tolo na de um homem de espírito, mas, se for mal pensada e escrita, pode deformar as consciências todas e torná-las tão tolas como a de quem a escreveu.

— Chega, Maciel. Não dá mais. Você não tem consciência. Quer saber? Nem gosto mais de você.

Seis meses depois, Daiane soube pela Rádio Bandeirantes, numa reportagem do jornalista Agostinho Teixeira, que descobriram a fraude das doações irregulares para as ONGs. O bando do Gavião escapou em revoada, mas a polícia estima que pelo menos o rapper e o hacker verão, talvez no verão, um céu quadriculado.

Leia as crônicas anteriores:

O Gavião Ataca de Novo

Libertaram o Gavião

Engaiolaram o Gavião

As garras do Gavião

O CPF do Gavião

Discussion - One Comment
  1. TeoFranco

    ago 11, 2013  at 12:01 am

    Importantíssima reflexão sobre as brechas que os malandros de plantão aproveitam para surrupiar o suado imposto da sociedade. Mais uma vez, parabéns Valente pela inspiração e disposição em compartilhar conosco.

    Responder

Leave a Comment