Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

É curioso observar que a maioria dos milagres de Jesus narrados pelos evangelistas foi praticada para beneficiar terceiros: paralíticos, cegos, mudos, enfermos, leprosos, o jovem lunático, a filha já quase morta do chefe da sinagoga, a mulher com hemorragia, a ressurreição do filho único da viúva da cidade de Naim, o servo de um centurião, e tantos outros.

Houve também milagres que beneficiaram amigos, familiares e discípulos de Jesus: quando estava num barco com os apóstolos e acalmou uma tempestade; quando, a pedido de Maria, transformou água em vinho, na festa de casamento de um amigo da família ou parente, em Caná, cidade próxima a Nazaré; quando multiplicou pães e peixes para dar de comer a uma multidão de seguidores e discípulos que o ouviam, já famintos, ao fim de uma longa jornada; quando curou a sogra de Pedro; quando ressuscitou o amigo Lázaro, que morrera havia quatro dias.

Note-se que em nenhum desses exemplos o milagre foi em causa própria. Sempre eram terceiros que se beneficiavam. Todavia, há um caso muito curioso, sobretudo para a classe fiscal, eis que é de natureza tributária. Está narrado exclusivamente pelo evangelista Mateus, que era publicano, ou seja, coletor de impostos a serviço do Império Romano. Certamente por esse motivo Mateus se interessava muito por temas tributários.

Havia um tributo per capita chamado didracma, que era pago pelos judeus com mais de 20 anos, diretamente ao templo. A cobrança desse tributo era um mandamento que vinha da lei mosaica, constava no livro de Êxodo (Ex 30, 12-16), que é o segundo do Pentateuco. O Império Romano não se opunha aos hábitos e regras religiosos dos seus dominados. O jugo era apenas econômico e político, e este último era atenuado por alianças com a monarquia local.

A didracma tinha esse nome porque correspondia a duas dracmas. A dracma era uma moeda de origem grega. Explica-se a circulação da moeda grega na Palestina por três motivos: primeiro, porque antes do Império Romano, a cultura grega se impregnara na sociedade palestina a partir do Império Macedônico, incluindo a influência econômica; segundo, porque naquele tempo as moedas tinham lastro metálico, valiam não apenas pela cunhagem, mas, sobretudo, pelo peso e pelo preço do ouro, do cobre e da prata que continham; e terceiro, porque toda aquela região situava-se em plena rota das caravanas, pela qual passavam comerciantes e mercadorias de várias procedências, de modo que o câmbio de moedas era frequente, e as gregas tinham grande aceitação, sobretudo pelos judeus, que há séculos se tinham acostumado com elas, embora também circulassem, obviamente, até por determinação legal, as moedas romanas, as cunhadas por César.

Em suma, o tributo em questão correspondia a duas dracmas per capita, embora pudesse ser pago em qualquer outra moeda, mediante câmbio.

Feito o esclarecimento, vamos à curiosa passagem evangélica na qual Jesus figura como contribuinte e, de certo modo, como tributarista.

Ele está voltando a Cafarnaum, à casa de Pedro, onde fixara, a partir do início de sua vida pública, uma espécie de base domiciliar. Esse domicílio de Jesus era suficiente para caracterizá-lo como contribuinte da didracma, afinal era habitante da cidade e era judeu. Bebamos diretamente da fonte, a narrativa de São Mateus:

Entrando em Cafarnaum, aproximaram-se de Pedro os cobradores da didracma e disseram-lhe: “O vosso Mestre não paga a didracma?” “Claro que paga”, respondeu. Quando chegou em casa, Jesus antecipou-Se, dizendo: “Que te parece, Simão? De quem recebem os reis da terra impostos e contribuições? Dos seus filhos ou dos estranhos? E como ele respondesse:“Dos estranhos”, Jesus disse-lhe: “Por consequência, os filhos estão isentos.” (Mt 17, 25-27)

A primeira impressão é de que Jesus está tentando esquivar-se do pagamento do tributo. Não fosse a cobrança ostensiva e talvez se eximisse de fato. Apresenta inclusive um bom argumento, uma analogia bem apropriada: se os reis da terra, os donos das terras, não cobram de seus próprios filhos, mas apenas dos súditos, dos estranhos à sua família, taxas e participações no resultado do plantio em seus terrenos, assim também Deus não as cobraria de Jesus, afinal o tributo era devido ao templo, lugar de oração, de contato com Deus, e Jesus era da mesma substância do próprio Deus, consubstancial ao Pai, era Filho de Deus, de modo que se Deus fosse um rei da terra, Jesus não seria cobrado por seu Pai, estaria isento. É um belo argumento, convenhamos. A analogia tem lógica perfeita.

Embora, em matéria de isenção, diria um colega mais rigoroso da Consultoria Tributária de São Paulo, a interpretação deve ser literal, restrita, não se aplica a analogia. E foi exatamente para que esse tipo de polêmica não se levantasse, ou pior ainda, para que um AFR mais ousado daquele tempo não lavrasse um Auto de Infração, para que ninguém se escandalizasse com a isenção analógica opinada por Jesus, foi por essas razões que decidiu pagar o tributo.

Então vem a parte mais interessante da passagem. Jesus decide pagar o tributo, mas como? Praticando um milagre, eis a resposta. O seu único milagre conhecido em causa própria. Embora também Pedro se beneficie, não há dúvida de que, ao determinar o milagre, Jesus estava pensando em saldar o seu próprio débito. Vejamos como Mateus completa a narrativa:

“No entanto, para não os escandalizar, vai ao mar, lança o anzol, apanha o primeiro peixe que nele cair, abre-lhe a boca e encontrarás aí um estáter. Toma-o e dá-lho por Mim e por ti.” (Mt 17, 28)

O estáter era uma moeda também grega que correspondia a quatro dracmas. Ou seja, um estáter pagava duas didracmas. É Pedro quem vai pescar o peixe com um estáter na guelra, mas a ordem e o milagre são de Jesus, sem dúvida.

Note-se, em primeiro plano, a discrição de Pedro, que pelo visto também não pagara a didracma (o estáter do milagre é que saldaria o seu débito), e sequer toca no assunto da cobrança que lhe fizeram sobre a inadimplência do Mestre. Este é que toma a iniciativa de abordar a questão, e o faz de maneira séria, sem fraude, mentira ou ambiguidade. Jesus não tenta esquivar-se enganando, mentindo ou fraudando.

Poderia alegar, por exemplo, se ouvisse o conselho de algum desses planejadores tributários que pululam por aí nos dias atuais, que não pagava em Cafarnaum, porque já o fizera em Nazaré, em Genesaré, em Magdala, em Cesareia, ou até em Jerusalém, afinal Jesus tinha, naqueles tempos, uma espécie de domicílio itinerante. Ademais, naquele tempo não se cogitava de guerra fiscal, e a noção de cruzamento de dados não existia: a proposição de um PVF (Pedido de Verificação Fiscal) da época, ou a emissão de um ofício em pergaminho para envio a outra jurisdição, no lombo de um camelo ou de um asno, não devia ser algo muito frequente, de modo que uma evasiva daquelas talvez eximisse o Mestre do pagamento. Mas Jesus não tenta esquivar-se, não foge, não mente, não emprega nenhum subterfúgio. Sequer se omite. Ele não concorda com o tributo, dá claramente o seu parecer, mas paga assim mesmo. Vá lá que paga com um milagre, mas isso é o de menos, cada um paga como pode: à vista, em prestações, num PPD (Programa de Parcelamento de Débitos) da vida, depois de cinco anos de briga no TIT e outros dez no Judiciário, em alguns casos só após a audiência criminal… Enfim, Jesus paga com um milagre.

É esse o único milagre de Jesus em causa própria narrado nos evangelhos. E só foi praticado para que não houvesse escândalo.

Parodiando o autor do milagre, em outras passagens:

Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Discussion - One Comment
  1. TeoFranco

    ago 19, 2013  at 12:01 am

    Valente, imagine “naquele tempo” dar andamento ao PVF emitido em pergaminho e diligenciado no lombo de um camelo? Muito boa a crônica, da qual podemos tirar outra lição, o viver com o dinheiro necessário, sem o exagerado apego ao “acúmulo de riquezas”, mas isso já seria tema para outro artigo baseado nas mesmas Escrituras…

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