Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

A segunda passagem relatada pelo evangelista Lucas sobre o relacionamento de Jesus com a classe fiscal deu-se em Jericó. A primeira dera-se numa das aldeias ao longo do rio Jordão, quando narrou a parábola que tinha como personagens o fariseu e o publicano (Lc 18- 9-14).

Agora, em Jericó, a vinte e poucos quilômetros de Jerusalém, já quase na foz do rio Jordão, quando este deságua no Mar Morto, Jesus não narra uma parábola, vai mais longe: protagoniza uma cena ao lado de um publicano poderoso, ninguém menos que o chefe dos coletores de impostos de Jericó.

Era um homem rico esse publicano, afirma o evangelista. Claro, Jericó era uma cidade próspera. Relativamente pequena, mas distava da cidade santa, Jerusalém, apenas uma jornada, de modo que os viajantes e as caravanas comerciais passavam e paravam ali. O comércio era bom e as margens do rio Jordão muito férteis, produzia-se bem no entorno de Jericó. Ademais, os coletores tinham participação no que arrecadavam: era um estímulo do Império Romano para que o coletor apertasse os contribuintes, agisse com severidade. Os romanos não eram ingênuos, sabiam das chatinagens da vida, eram eles próprios mestres nessa arte, que o diga a história daqueles reinos que muito mais tarde seriam unificados na atual Itália; aliás, que o diga a atual Itália… E se defendiam, os romanos, dos desvios tratando bem os seus prepostos, com estímulos generosos.

Ora, se um publicano da FDT (Fiscalização Direta de Tributos) de então ganhava muito bem, um chefe nem se fale, ganhava muito mais que os subordinados. O fato é que esse publicano da passagem narrada por S. Lucas era um homem rico, o texto é taxativo (Lc 19, 1-2): Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de publicanos.

Era rico e de baixa estatura física. Não imagine o leitor que a altura do personagem é criação literária do cronista. A notícia consta no texto evangélico (Lc 19, 3-4): Procurava ver Jesus e não podia por causa da multidão, por ser de pequena estatura. Correndo à frente, subiu num sicômoro para O ver, porque Ele devia passar por ali. O sicômoro é uma árvore ornamental. O chefe dos publicanos sobe nela para ver Jesus passar, pois sua fama estava se alastrando.

A narrativa é truncada, pois não menciona que Jesus já conhecia esse Zaqueu de outros carnavais, e que talvez até tivera algum relacionamento mais informal com ele, pois o chama pelo nome e pede hospedagem em sua casa (Lc 19, 5-6): Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: “Zaqueu, desce depressa, pois tenho de ficar em tua casa”. Ele desceu imediatamente e recebeu-O cheio de alegria. Ora, ninguém se oferece para hospedar-se na casa de alguém se já não desfruta de alguma camaradagem. A menos que seja um cara-de-pau, mas podemos descartar esta hipótese, certamente não era o caso de Jesus. Em outras palavras, é muito provável que Jesus conhecesse Zaqueu de outras andanças por Jericó. De todo modo, é mera presunção implícita na narrativa lucana.

Se o conhecimento anterior entre Jesus e Zaqueu não é revelado explicitamente, não se pode dizer o mesmo acerca da estupefação dos que observaram aquele convívio (Lc 19, 7): Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-Se em casa de um pecador. Escândalo parecido causara a confraternização de Jesus com Mateus e os amigos deste, em Cafarnaum, na cena narrada pelo próprio Mateus (Mt 9, 9-13) e confirmada por Marcos (Mc 2, 13, 17). Em Jericó não é diferente. Pelo contrário, aqui o escândalo talvez tenha sido ainda maior, eis que em Cafarnaum não se afirmara que o publicano era pecador, apenas que era publicano e que Jesus comia com publicanos e pecadores, deixando implícito que a função fiscal era pejorativa. Já aqui, em Jericó, afirmam às claras que Zaqueu é pecador, Jesus hospedava-se na casa de um pecador.

Não sabemos se Zaqueu é rico e pecador por aceitar subornos, ou se é rico e pecador por praticar a escorcha tributária e dela participar. Para aqueles judeus dominados pelo Império Romano, ambos os comportamentos são típicos de pecadores, de gente que explora o seu próprio povo.

A cena novamente é truncada, pois não reproduz o processo inteiro da conversão de Zaqueu, um diálogo em que se tenha construído essa transformação interior, os argumentos que o publicano teria ouvido de Jesus, mas o certo é que o coração do chefe dos coletores de impostos de Jericó foi tocado. Sabemos disto pela própria boca de Zaqueu (Lc 19, 8): Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: “Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres, e, se defraudei alguém em qualquer coisa, devolver-lhe-ei quatro vezes mais”.

É muito curioso esse compromisso assumido por Zaqueu naquele momento. O publicano não promete devolver os subornos que recebera para não lançar o tributo a favor de Roma; é possível que não recebesse subornos, ou, se os recebera, corresponderiam à metade dos seus bens, a tal metade que ele daria aos pobres. Mas a parte curiosa não é essa, está na promessa seguinte: se defraudei alguém em qualquer coisa, devolver-lhe-ei quatro vezes mais. Zaqueu está admitindo que pode ter praticado um ou outro excesso de exação, cobrado mais do que devia, talvez por participar na receita tributária. Teria ludibriado o contribuinte, ou, como chefe dos publicanos, pode ter passado instruções para que os subordinados cobrassem mais do que deviam e assim todos auferissem maiores comissões por produtividade ou participação nos resultados? Não sabemos. Mas foi pensando nessas autuações improcedentes pagas pelos contribuintes, provavelmente, que Zaqueu fez a promessa de restituição em quádruplo.

O critério da restituição em quádruplo é muito interessante, pois corresponde à multa de 300% mais o principal. Qualquer semelhança com a imposta pela Receita Federal contra os sonegadores do IR talvez não seja, portanto, mera coincidência. Se bem que naquele tempo o gravame era mais pesado, eis que não havia desconto para pagamento em até 30 dias… Nem PPD, nem PPI, nem REFIS…

Embora menos curioso, o mais importante dessa passagem é o desfecho, quando Jesus anuncia que a atitude de Zaqueu vai implicar na sua salvação e na da sua casa; entenda-se, da sua família. Está em Lc 19, 9-10: Jesus disse-lhe: “Veio hoje a salvação a esta casa, por este (Zaqueu) ser também filho de Abraão; pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. O espírito dessa passagem é o mesmo de algumas parábolas que Jesus narrou, como a da moeda perdida, a da ovelha desgarrada, e a do filho pródigo. O desfecho é sempre o mesmo: a alegria de recuperar o que estava perdido.

Portanto, publicano perdido do século XXI, não se desespere, você não é um caso assim tão irremediável, talvez tenha salvação. Vai depender exclusivamente de você, Zaqueuzinho, da sua atitude. E é bom mesmo que essa mudança ocorra depressa, pois tem gente por aí querendo transformar — ai de ti, Zaqueu — o excesso de exação em crime hediondo. Da corrupção nem se fale…! Se bem que de sonegação hedionda ninguém fala… Aliás, se a sonegação for paga, muitas vezes até com anistia de multas e remissão de juros, nem crime é. É muito interessante esse sistema de pesos e medidas… Mas não ligue para isso, Zaqueu, cuide apenas de si e dos seus. Afinal, já lhe mostraram o cartão amarelo.

Discussion - 2 Comments
  1. Clovis Panzarini

    ago 30, 2013  at 12:01 am

    Ótima! Surpreendeu-me a informação de que os publicanos de Jericó recebiam PR. Trimestral?

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  2. Antônio Sérgio Valente

    ago 30, 2013  at 12:01 am

    Não, era caso a caso mesmo. Sério. O tal “telônio”, que era uma espécie de mesa de arrecadação, uma coletoria da época, onde o imposto era calculado e pago, dizia-se que era uma banca de “chatinagem”. Essa palavra caiu em desuso, mas quer dizer negociação em sentido pejorativo. Na verdade, o publicano era comissionado (como o nosso Fisco na década de 60, durante um tempinho, salvo engano meu, não sou desse tempo).
    A produtividade e a PR coloquei só para quebrar o anacronismo e aproximar a cena.
    Aliás, pensei até em colocar uma Coca-Cola Zero durante a recepção e hospedagem, mas depois tirei, Jesus jamais tomaria uma… Ele tinha bom gosto, preferia vinho.

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