Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

No rol de cenas evangélico-tributárias, a desta crônica é certamente a mais conhecida. Está narrada em três evangelhos canônicos: de São Mateus, São Marcos e São Lucas (Mt 22,15-22; Mc 12, 13-17; e Lc 20, 20-26).

Jesus, depois de pregar na Galileia e ao longo das duas margens do rio Jordão, de passar por Jericó, Betfagé e Betania, ensinando a nova doutrina por meio de parábolas e demonstrando o seu poder milagroso, fez uma entrada triunfal em Jerusalém, aclamado pela multidão embevecida por sua fama. Ali, expulsa os vendilhões do templo e incomoda ainda mais os fariseus, saduceus, herodianos e escribas. Essas facções político-sociais já se preocupavam com sua popularidade e o temiam de uma ou de outra forma. É que Jesus trazia uma nova exegese das escrituras antigas, dava maior flexibilidade à lei mosaica, embora não a revogasse. Abolia o formalismo excessivo, punha o amor e a misericórdia como prioridades, e não apenas a justiça, como antes. Era outra forma de ver o mundo, as relações dos homens entre si e com Deus. A riqueza material e espiritual, o exercício do poder, a miséria, o comércio no templo, os sacrifícios inúteis, a vaidade, tudo isso ganhava outra perspectiva crítica na doutrina do Nazareno, e preocupava, de um lado, o judaísmo empedernido, e, de outro, tanto os que já estavam no poder como os que o disputavam.

Os atritos são inevitáveis. A princípio, vêm na surdina, sob o manto da astúcia, com uma conversinha mansa. A narrativa dos evangelistas os ilustra bem:

Então, os fariseus reuniram-se para combinar como O haviam de surpreender nas Suas próprias palavras. Enviaram-Lhe os seus discípulos, acompanhados de herodianos, a dizer-Lhe: “Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem Te preocupares com ninguém, pois não olhas a condição das pessoas. Diz-nos, portanto, o Teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?” (Mt 22, 15-17).

Os evangelistas Marcos e Lucas apresentam variações mais objetivas sobre a pergunta final. Marcos acrescenta à questão da licitude sobre o pagamento do tributo, a pergunta: Devemos pagar ou não? (Mc 12, 13-14). Já Lucas suprime a questão da licitude e vai direto ao ponto: Devemos nós pagar tributo a César ou não? (Lc 20, 20-22).

Observe-se que estamos diante de uma armadilha: se a resposta fosse sim ou não, Jesus se indisporia ou contra o Império Romano, que dominava a região, ou contra o povo submetido, os que pagavam o tributo ao dominador e obviamente não gostavam disso, sentiam-se escorchados. Qualquer que fosse a resposta, o interrogado não escaparia. Mas Jesus percebe a armadilha e responde com sabedoria: não diz sim, nem não, emite uma frase de efeito, que haveria de tornar-se um provérbio. Leiamos a narrativa de São Mateus:

Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: “Por que me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do imposto.” Apresentaram-lhe um denário. “De quem é, perguntou, esta imagem e esta inscrição?” “De César”, responderam. Disse-lhes então: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Quando isto ouviram, ficaram maravilhados e, deixando-O, retiraram-se. (Mt 22, 18-22)

Marcos narra quase com as mesmas palavras de Mateus, mas Lucas finaliza com um comentário conclusivo:

Não conseguiram apanhar-lhe uma palavra em falso diante do povo, mas, admirados com a resposta, ficaram calados. (Lc 20, 26).

A resposta de fato era muito inteligente e dava o que pensar. É uma pérola do cristianismo. Observe-se que ela não vai contra o pensamento dos dominados, pois não determina o pagamento a César do que não lhe pertence. A interpretação especifica: a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Ora, o trabalho dos judeus e dos gentios, o suor de seu rosto, os seus bens, o que já possuíam antes de César chegar com suas tropas invasoras e sua nova moeda, enfim, o que César não contribuiu para produzir, nada disso lhe pertence. Portanto, a rigor, esses itens não devem entrar na base de cálculo tributária, digamos assim. César não tem o direito de exigir o que não lhe pertence. Pagar a César o que é de César condiz plenamente com a assertiva de que não se deve pagar a César o que não é César. Os dominados certamente aprovavam esta última conotação. É o outro lado da mesma moeda.

Aliás, à época, as moedas que circulavam na região eram muitas, sobretudo gregas, pois as mercadorias procediam de vários lugares. A rota das caravanas ligava não apenas o Mar Mediterrâneo (de onde vinham mercadorias romanas e gregas, dentre outras), ao Mar da Galileia, mas também descia ao sul, rumo à região do Mar Morto, à Judeia, à Arábia e ao Egito, subia ao norte em direção a Damasco, Antioquia e Edessa, derivava pela Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, passava por Nisibis e Babilônia, ora em direção ao Golfo Pérsico e ao Mar de Omã (para dali alcançar a costa leste da Índia e mais ao sul desta o Sri Lanka), ora atravessando por dentro e pelo norte a Pérsia e a Partia, os vários reinos que por ali havia, ao sul do Mar Cáspio, até alcançar as franjas tortuosas do Himalaia, a Matchura e o Rio Ganges. Portanto, por aquela região circulavam mercadorias de muitas procedências e espécies, e moedas com efígies de muitos e muitos reinos e impérios. Dar a César o que é César significava tributar a Roma o que procedia de Roma, apenas isto, e não o que procedia da própria Palestina, ou da Síria, ou da Índia, ou do Egito, ou de qualquer outra parte do mundo. A César o que é de César, nada mais.

Por outro lado, os dominadores romanos não podiam afirmar que a resposta de Jesus insuflava a população a sonegar, pois a moeda de curso legal na Palestina, a romana, com efígie de César, foi a utilizada na resposta. Aliás, fisicamente utilizada: (…) mostrai-me a moeda do imposto. Sequer se poderia afirmar que Jesus estava sendo ambíguo. A resposta foi precisa, legal, justa e sábia.

Sábia, sobretudo sábia.

Quem tivesse ouvidos para ouvir, que a entendesse.

E quem tiver ainda hoje ouvidos para ouvir, que a entenda.

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