fernando_alecrim[Fernando Alecrim]

Eu morei em Brasília dos 11 aos 16 anos. Vivi boa parte daquele clima. Metade do governo Médici. Metade do governo Geisel.

Sempre gostei de música. Brasília proporcionava excesso de tempo livre naquela época, e oportunidades únicas, como um intenso convívio com filhos de funcionários estrangeiros das inúmeras embaixadas, ou a dedicação a hobbies, como música, esportes, etc.

A coisa da música, inclusive, acabou estourando nos anos 80. Renato Manfredini, por exemplo, estudava no meu colégio (Marista). Era um ano mais velho que eu. Eu fazia o 1º ano do ensino médio quando ele estava no 2º. Me lembro vagamente dele, porque nessa época ele não era popular nem nada, e havia muita gente que parecia mais legal.

Eu um dia fui ao apartamento de um amigo de um amigo meu, Mauro. Ambos, meu amigo e o amigo dele que eu visitava, eram filhos de militar, aliás, como eu também, pois meu pai servia em Brasília no Ministério da Marinha de Guerra, já que ele mesmo ocupava o cargo de Capitão-de-Fragata naquela época. Foi assim que eu conheci o Edinho, o Nelsinho e o Niltinho, três irmãos, filhos de um então coronel (do Exército).

Essa convivência eu acabei voltando a ter no Rio, quando minha família retornou do longo hiato em Brasília.

Eu estava praticando bateria nessa época, tomando aulas com um baterista de jazz, ainda na época em que eu estudava engenharia.

Meu amigo Mauro, que havia me apresentado os três irmãos, tocava baixo (e ainda toca, enquanto eu parei há décadas com a bateria). Chamou seus amigos. Um tocava sax (Niltinho), os outros, guitarra (Edinho e Nelsinho). Fizemos uma bandinha de garagem. Chamei uma amiga minha pra cantar. Está tudo registrado em vídeo “super 8″ caseiro, uma relíquia em poder do meu amigo Mauro.

Como engenharia tomava muito tempo e dor de cabeça, foi aí que eu parei de tocar com eles. Eles continuaram, quer dizer, os três irmãos, agora filhos de general.

Um deles foi general que ficou muito conhecido. E, inegavelmente, entrou pra História: Gen. Nilton Cerqueira.

Um sujeito que, naquela mesma época, acabou sendo convidado pelo então Governador Moreira Franco a assumir a cadeira de Secretário de Segurança (RJ). E, mais tarde, acabou sendo também eleito Deputado Federal, por vários mandatos. Dizem que foi um excelente Secretário de Segurança. Caiu quando, homem de princípios rígidos, resolveu enfrentar o crime organizado, na figura dos banqueiros cariocas do Jogo do Bicho. Plantaram na mídia muitas notícias falsas, muitos dossiês, mentiras que não sobreviveram à sua saída do governo. Como costuma acontecer.

Já seus três filhos, depois da minha saída e do meu amigo Mauro, eles chegaram a gravar um disco, com o nome de “Grupo Kongo”, que chegou a ter um hit nas rádios locais (1987), um reggae com um típico nome adolescente, “Biquíni Defunto”, que teve até videoclip muito veiculado na MTV (veja o vídeo aqui). Uma bobagem da qual eu, se ainda fosse membro da banda, certamente teria vergonha, até porque o meu negócio sempre foi rock & roll, o que, aliás, também acabou me desmotivando a ficar na banda deles, pois eles só queriam tocar reggae.

Edinho, que tocava guitarra-base, mais tarde, ficaria famoso na cena carioca, como DJ de uma casa noturna que marcou época na cidade, o “Crepúsculo de Cubatão”. Enquanto Niltinho, do sax, formou-se em Medicina, e Nelsinho, guitarra solo e, na fase “Kongo”, também vocais, formou-se em Engenharia Elétrica. Mas me parece importante dizer que todo o espaço que eles conseguiram como músicos na época, inclusive com entrevista no talkshow do Jô Soares, na Globo, talvez não tenha sido exatamente por seus talentos musicais, mas pelo interesse que provocavam como filhos de quem eram. Claro que eles aproveitaram essa vantagem proporcionada pela mídia – não por um governo ou pelo pai -, pra tentarem a sorte e verem se realmente poderiam vencer na vida como músicos. Não venceram, ou melhor, como rapazes da classe média, com boa educação e boas alternativas de profissão mais tradicionais, sendo jovens acostumados a um nível de conforto e expectativa, após algum tempo sem resultados, eles não dobraram a aposta quando viram como era difícil cair nas graças do público. Não deu, ou não quiseram pagar pra ver, como ocorre a tantos outros jovens sonhadores, país afora. Mas tiveram sua chance, e fizeram o melhor que podiam com ela.

Aliás, me lembro que, quando discutíamos qual deveria ser o futuro nome da nossa bandinha de garagem, eu sugeri de forma cândida, mas também, algo maliciosa, o nome de “MR-8″. Isso criou um mal-estar meu com eles. Mas foi tudo passageiro. Eles não eram politizados, nem um pouco. Acho que nessa época, nem eu era. Éramos todos só garotos, meio nerds, ninguém usava drogas, éramos bem caretinhas, estudantes de medicina, de engenharia, ninguém tinha vida fácil, o tempo pra tocarmos juntos era meio apertado num clima desses.

Não quero passar a impressão de nenhuma simpatia ideológica, oculta ou não, com regimes militares, mas os filhos do Gen. Cerqueira eram inteligentíssimos, aliás, como quem conhece diz que também foi o seu pai, um homem que transitou tanto na área militar, quanto na civil, com sucesso, tal como outro militar também muito famoso, o Tenente-Coronel Jarbas Passarinho, que ocupou os cargos de Governador do Estado do Pará, Senador da República, Ministro da Previdência Social do Governo Figueiredo e Ministro da Justiça no governo de Collor de Mello.

Talvez nem todos aqui saibam que o pai desses rapazes foi o militar quem recebeu a missão, que cumpriu com eficácia, de conceber e executar a operação que entrou pra História com o nome de Operação Pajuçara, que caçou o terrorista e ex-capitão do Exército Carlos Lamarca (e ser desertor é o maior crime possível pra um soldado, na cultura militar). Foi ele quem, na virada dos anos 60 para os 70, era o chefe da atual Presidente da República, na facção terrorista de extrema-esquerda autodenominada de “VAR-Palmares” ou “VPR”, responsável por ações como o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, em troca da libertação de 70 presos políticos, e o roubo aos cofres do Governador de SP, Ademar de Barros, dentre outras.

Em Brasília, as pessoas muitas vezes convivem com a História sem perceber. Ao sair de lá, a consciência disso, dessa súbita perda, me tornou interessado nesses temas. Por isso, desde cedo, sou politizado. Sou um nostálgico dos meus tempos de Distrito Federal até hoje.

* O AFR Fernando Alecrim formou-se em Engenharia Civil e Direito, e tem mestrado em Administração de Empresas. Atualmente é assistente fiscal da DTJ/2 – Delegacia Tributária de Julgamento de Campinas

Discussion - 2 Comments
  1. TeoFranco

    set 13, 2013  at 12:01 am

    Fernando,
    Importante reflexão sobre época que, apesar de sombria, tem muito a nos ensinar. Recentemente assisti ao filme “Somos tão jovens” sobre o surgimento de outra banda a Legião Urbana do Renato Russo, na mesma época em Brasília: http://www.youtube.com/watch?v=xa3izIueaE4
    Abs, no aguardo da próxima crônica…

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  2. Fernando Alecrim

    set 16, 2013  at 12:01 am

    Teo, falei de forma meio cifrada na crônica sobre o Renato Russo. O nome dele era “Renato Manfredini”. Ele estudou na mesma época que eu, no mesmo colégio, em Brasília, Eu recebi de uma ex-colega da minha sala na mesma época uma foto dele no colégio, em 1977, escaneada. Uma dessas fotos “oficiais” de colégio, com todos os cerca de 20 alunos olhando de frente pro fotógrafo, uns sentados, outros em pé.

    Eu não a tenho comigo, mas é fácil de conseguir. Basta eu entrar em contato com a minha ex-colega e ela me manda a foto de novo. Inclusive a da minha sala também (Renato Russo estava um ano na minha frente, ele era um ano mai velho que eu).

    Abraços,

    Fernando

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