vanzamp[Vanessa Zampronho *]

“A Nota Fiscal Paulista parece ser uma boa iniciativa do governo do Estado”, pensou a repórter Vandinha ao ter conhecimento do seu lançamento, no longínquo ano de 2008. Vanda Scagnolli é uma jornalista tarimbada com vasta experiência policial que trabalha no Folha da Noite, um dos jornais mais lidos do país. Embora seu apelido viesse da sua expressiva altura de 1,50 m, o diminutivo também refletia uma personalidade calma e delicada. Mas superprofissional, direta e assertiva no contato com os meliantes, delegados e policiais.

Ela apaixonou-se pelas coberturas de sequestros, roubos, casos de assassinatos, brigas de trânsito e assuntos afins quando estagiou na Gazeta do Tatuapé, um jornal de bairro que hoje não existe mais. Começou fazendo um pouco de tudo, mas acabou parando nas páginas policiais quando, no plantão de fim de semana, foi escalada para ler os boletins de ocorrência da delegacia mais próxima para ver o que tinha acontecido no dia anterior.

Os casos escabrosos de ex-maridos que assassinam ex-esposas, trabalhadores simples que têm seus celulares roubados e acidentes de carros, entre outros delitos, despertaram nela o que se conhece no meio jornalístico como “Complexo de Clark Kent”: o jornalista se sente um verdadeiro paladino da justiça e quer contribuir com a sociedade noticiando a prisão de malfeitores e indivíduos assemelhados. No lugar da roupa especial, a capa que voa, o corpo de aço inoxidável e o olhar laser, as armas principais são a caneta e o bloquinho de papel.

Seus 35 anos de idade, sendo dez à frente de vários plantões à espera de perseguições policiais, estouro de cativeiros de sequestrados, investigações de desmanches ilegais de automóveis e prisões de bandos especializados em crimes diversos deram a ela o conhecimento necessário para acompanhar as diligências policiais – sem contar uma agenda recheada com os números de telefones e e-mails de dezenas de delegados, agentes, detetives, investigadores, secretários de justiça e fontes infiltradas nas periferias.

Foi em um plantão ensolarado em um sábado que ela recebeu uma ligação do delegado Aranha.

— Vandinha, se liga na história que vou te contar – falava baixinho o delegado, como se estivesse revelando um grande segredo.

— Que bom, preciso de uma boa história para animar esse plantão de hoje, que está bem fraco – responde, entediada, nossa super-heroína.

— Estamos acompanhando uma investigação junto com a Secretaria da Fazenda em um caso dos bons. Fraude contra a Nota Fiscal Paulista.

— Mas não respeitam nem a Nota Fiscal? Conte-me tudo, não me esconda nada.

— Ainda não posso revelar muita coisa, mas parece ser um bando bem organizado, que invade os sistemas da Fazenda e transfere o que foi arrecadado com a Nota para contribuintes que não registraram as senhas dos CPFs para retirar seus créditos.

— Que história! Mas já conseguiram pegar alguém? Como descobriram isso? Quantas pessoas foram afetadas? – de repente Vandinha dispara seu arsenal de perguntas necessárias para elaborar um bom texto. Ela se sente inundada por uma enxurrada de bom humor misturada com aquela vontade de fazer o bem ao mundo e colocar o safado na cadeia.

— Estamos quase chegando lá, mas ainda não posso te falar muito. Mas fica esperta que logo você vai ter novidades.

Se tem uma coisa que jornalista detesta (entre tantas outras) é ter de esperar pelas coisas acontecerem. Dependesse dela, Vandinha já teria entrado na delegacia, mexido em todos os papéis, ligado para milhares de telefones e entrevistado os suspeitos. Mas ela não era advogada, nem juíza, muito menos super-heroína com olhar de raios-X. A repórter de espertos olhos castanhos, emoldurados por um par de óculos de armação grossa e cabelos avermelhados, acessa o Google e pesquisa tudo o que pode sobre a Nota Fiscal Paulista.

E fica ainda mais incrédula ao ver que virtualmente seria impossível burlar um sistema aparentemente seguro e com boas intenções. Mas como de boas intenções o inferno está cheio, a cabeça de Vandinha não para de pensar na maneira de conseguir mais informações e entrevistar os envolvidos na fraude.

O plantão no Folha da Noite se arrasta. Ela acaba escalada para fazer um texto para o caderno Internacional, já que a polícia não a estava ajudando com assuntos relevantes. Enquanto escrevia sobre um homem-bomba que se explodiu e matou centenas de pessoas no Oriente Médio, sua cabeça explodia em curiosidade e vontade de ir atrás do meliante da Nota Fiscal Paulista.

Eis que no dia seguinte o mesmo delegado telefona para Vandinha. Sua voz em um tom mais alto e descontraído já mostrava que ele estava disposto a dar mais informações. Vandinha se segura para não metralhar Aranha com mais perguntas.

—Vanda Scagnolli, agora dá para falar. O nome do cabeça da gangue é Maciel, o Metafórico. Ele se diz compositor de rap. Mas sabemos que ele é conhecido entre os membros do grupo como Gavião – descreve Aranha.

— Bem ave de rapina mesmo, que quer pegar todo o dinheiro de imposto para ele – responde, indignada.

— Ele está preso aqui na carceragem da delegacia junto com um hacker que era “parça” [parceiro, na linguagem da periferia] dele no esquema. O negócio era bem organizado. Se quiser dar uma chegada aqui para eu te passar mais informações, agora é a hora.

— Nem precisa falar duas vezes, estou indo para aí. Esse plantão está chato demais – termina a conversa e desliga o telefone.

Ela precisa avisar o editor que vai sair. Arruma suas coisas. Seu semblante é o de uma criança que vai passear na maior loja de brinquedos do mundo.

—Marcos, consegui uma história das boas. Fraude contra a Nota Fiscal Paulista. Prenderam os cabeças da gangue. Vou lá apurar o que está rolando.

— Vai lá, Vandinha. Pelo menos alguém tem alguma coisa interessante para fazer nesse plantão chato de domingo – Marcos libera sua repórter.

No carro da reportagem, ela faz dezenas de anotações. São suas dúvidas sobre o caso. Escreve freneticamente no seu bloquinho para não perder nada.

Vinte minutos depois, chega à delegacia. Aranha a espera. Embora esse seja seu sobrenome, ele é muito apropriado ao delegado. Seus 1,90 m de altura, braços longos e vestidos com uma blusa preta lembram muito uma aranha caranguejeira. Ele a recebe efusivamente, e ela já chega disparando suas perguntas.

— Calma lá, Vandinha, a gente ainda está em fase de investigação. Nem devia estar falando com você. Fica tudo em off, ok?

[Em tempo: no jornalismo, quando se fala em off, a fonte de informação quer dizer que esse assunto não deve ser divulgado. Vem da expressão off the record, ou fora da gravação, no caso de ser uma entrevista gravada]

— Eu vou anotar mas não vou soltar nada ainda. Só preciso me lembrar dos pontos mais importantes.

Aranha, com a paciência do artrópode no processo de elaborar sua teia, começa a contar como chegou a essa gangue. O Ministério Público recebeu uma denúncia de uma das mulheres que foram recrutadas pelos chefes do grupo. Elas eram caixas de um supermercado na periferia e faziam parte de um esquema que anotava nas notas fiscais os números de CPF que haviam sido registrados na Secretaria da Fazenda, mas sem o cadastramento de senha. Um hacker havia conseguido essa relação de CPFs, que eram fornecidos às operadoras de caixa, e ele cadastrou e-mails, senhas e contas de banco para que esse dinheiro da Nota Fiscal fosse desviado.

Por sua vez, o MP acionou a Secretaria da Fazenda e deu início a uma investigação cautelosa que levantou várias falhas do sistema de informática da Nota Fiscal Paulista. Foi quando a delegacia apareceu na história, para levantar informações dos meliantes e do processo todo.

Os olhos de Vandinha faiscavam. Era uma bela história, digna de primeira página. Conforme Aranha ia falando, mais indignada se sentia. Era hora de colocar a roupa especial de super-heroína, digo, de usar o bloquinho e a caneta para fazer algumas perguntas.

— Posso falar com o Maciel? Preciso conhecer essa criatura – pergunta Vandinha.

— Até pode, não sei se ele vai responder alguma coisa – desencoraja Aranha.

— Eu sei fazer esse cara falar. Confie em mim.

Aranha vai com Vandinha a uma sala a qual ela já havia ido outras vezes. Era a sala de visita dos advogados, onde os suspeitos se encontram com seus defensores para saber do andamento do seu processo. Vandinha abre o bloquinho. Respira fundo. Arruma o cabelo, limpa os óculos, abre a caneta e aguarda.

Maciel entra, algemado, na companhia de um policial mal encarado. Ele usava uma camiseta branca, que realçava sua tatuagem de gavião no braço cor de caramelo. Os olhos de Vandinha pousaram nesse desenho, que a hipnotizou. Não fossem pelas perguntas anotadas no bloquinho, ela teria esquecido tudo o que queria saber dele. Gavião se senta, cabisbaixo, mostrando bem sua cabeça com o cabelo cortado à máquina 2. Passaram-se longos cinco segundos antes da repórter começar a perguntar.

— Você é o tal do Gavião da gangue da Nota Fiscal Paulista? – pergunta. “Nossa, isso dá um belo título para a matéria”, pensou.

— Si..si..sim, sou eu – Gavião responde, titubeante, sem saber quais palavras usar.

De repente seu espírito de Clark Kent dá um passeio e sai dela. No seu lugar, algo toma conta. O gavião tatuado no braço do entrevistado não deixava nossa repórter pensar jornalisticamente. Vandinha tinha uma enorme tatuagem nas costas, uma carpa em estilo oriental. Sempre gostou da arte corporal e adorava ver desenhos nos corpos dos outros. Esse gavião tinha algo especial, que ela não sabia identificar.

Mas Vandinha precisava se recompor. Pensava muito antes de perguntar.

Olhou para o bloquinho e leu sua primeira anotação. Gavião levantou sua cabeça lentamente. Seus olhos se encontraram com os de Vandinha que, desconcertada, voltou a ver o que havia escrito. Sentia a respiração na garganta. “Por que eu não consigo fazer as perguntas que eu preciso? O que esse Gavião tem que me faltam as palavras?”, questiona-se, incrédula.

Vandinha nunca se intimidou com meliantes, e olha que ela já entrevistou bandidos perigosíssimos, inclusive psicopatas em estado de alteração mental. Era escolada, experiente, sabia lidar com indivíduos visivelmente em estado de delírio. Mas quem estava delirando, ainda mais com uma tatuagem incrível e sendo fuzilada por um olhar fulminante, era ela.

* Vanessa Zampronho é jornalista e gerencia o conteúdo do Blog Afresp.

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