Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

Ao saber que a polícia estava na sua cola de novo, o rapper Maciel, o Metafórico, também conhecido como Gavião (por causa de uma tatuagem da ave em seu braço esquerdo), entrou em parafuso.

Tudo começou quando uma de suas sete colaboradoras, a Minervina da Cohab 22, presidente da ONG de proteção às borboletas negras, ligou assustada para ele, dizendo que um engravatado do governo a procurara, pedira informações sobre a entidade e fizera questão de ver as borboletas. Ela explicou que só tinha duas, mas o distinto insistiu que queria porque queria vê-las, então ela tirou a camiseta e mostrou: uma no ombro direito e outra no cóccix.

— O cara ficou tão baratinado que até pôs os óculos para ver direito — Minervina se gabou, tinha um orgulho danado das suas curvas ilustradas.

Fazia uns bicos como stripper em boates da periferia, e era dançarina nas raras apresentações do metafórico rapper. Era líder do fã-clube e fazia aquilo por amor ao ídolo, mas ele sempre retribuía, de uma forma ou de outra.

— Mi, não vai me dizer que você fez um strip para ele…

— Ele queria ver as borboletas, ué, eu mostrei. Tá com ciúme, tá…?

— Tô, pô…! — ele disse, mas pensou: ‘que ciúme que nada’. — E ele?

— Ficou com aquela boca aberta de babão, quase cai a dentadura.

— O cara é matusalém?

— Deve ter nascido em 1800, por aí.

— Então não tem perigo.

— Não sei não…

— Por que a dúvida?

— Ele nem tocou nas borboletas. Mandou eu me vestir, tirou um papel da pasta, puxou uma cadeira e escrevinhou, escrevinhou, escrevinhou…

— Não m’enerva, Minervina, escreveu o quê?

— Que a gente não tinha borboleta nenhuma, a não ser as duas tatuadas. Mandou eu descobrir de novo o ombro, e depois levantar um pouco a camiseta nas costas, tirou fotos com o celular, então pediu para eu sorrir e bateu a última. Disse que eu sou fotogênica e que um dia ainda vou sair na Playboy, até pediu o meu telefone.

— Canalha…!

Maciel não conseguia mais dormir depois daquela notícia. Tinha pesadelos terríveis, suava a noite inteira. Sem cabeça para compor nem ensaiar. Ficava zanzando pelas ruas, imaginando o pior. Voltar para o xilindró definitivamente não estava em seus planos. Não há gavião que se adapte à vida na gaiola.

Foi então que, numa das andanças a esmo daqueles dias, quando passava por uma calçada perto da Praça da Árvore, um rapaz lhe entregou um folheto de um espaço esotérico que prometia desatar nós, abrir caminhos, limpar a aura, energizar a mente e o espírito, curar embriaguez e depressão, ajudava até a engravidar e resolver casos amorosos, previa o futuro com búzios e tarô, e — o que mais cativou o rapper — resolvia problemas nos negócios.

Subiu as escadas, pagou vinte paus por uma consulta básica, mas como o caso dele parecia grave, a aura totalmente negra e quadriculada, a vidente o encaminhou para uma limpeza espiritual profunda, com direito a imersão numa banheira com sal grosso, manjericão e arruda. Depois, para completar o lava-rápido, um banho de luzes coloridas e outro de energia invisível no centro de uma pirâmide de fio de cobre. E, finalmente, já à noitinha, um passe especial para afastar as urucubacas mais empedernidas.

No final das contas, a tarde espiritual custou ao rapper a bagatela de três mil pratas e dois piercings de ouro e diamante que ofereceu — assim, meio sem querer querendo, como diria o Chaves — a uma cigana que, entre uma sessão e outra, leu o seu futuro na palma da mão e lhe anteviu um grande e espetacular sucesso.

Saiu dali limpo e energizado, era outra pessoa, o astral lá em cima, leve feito um confete ao vento. Compôs naquela noite um rap da virada, e decidiu que passaria a cantar de graça nas imediações de escolas secundárias do Grajaú, começaria o sucesso pelas beiradas, animando os manos da perifa.

Mas o entusiasmo durou só dois dias, pois no terceiro todas as colaboradoras das ONGs de fachada ligaram apavoradas por causa de uma operação da polícia. Fizeram o que haviam feito com a Minervina, colheram declarações, bateram fotos.

Maciel se desesperou ainda mais, o cerco estava apertando.

Procurou o doutor Bel Belmonte, o rábula que o atendera no caso das 77 caixas de lojas que inseriam nos cupons os CPFs de parentes dele, mas só foi atendido depois de assinar o cheque da pendência, que havia esquecido de pagar, foi por distração, doutor, tem certeza de que não paguei?

O causídico mexeu os pauzinhos e descobriu o que estava acontecendo. Após receber reclamações de que contas de devolução de créditos e prêmios do programa de estímulo à cidadania estavam bloqueadas, o Fisco resolveu investigar. Os titulares digitavam os seus dados, tentavam cadastrar a senha, mas a tela informava que já havia cadastro para aquele CPF. “Mas eu nunca entrei nesse site, essa foi a primeira vez”, explicavam. As contas estavam quase zeradas. Aquilo já ocorrera antes, quando era possível transferir o valor para qualquer conta bancária, mas essa porta fora fechada havia um bom tempo. Estariam os denunciantes mentindo? Teriam cadastrado as senhas, sacado o dinheiro e não se lembravam? Teriam o marido ou a esposa acessado a conta sem que o outro titular soubesse?

A investigação interna prosseguiu e logo se constatou que o caso era sério: os valores foram transferidos, por doação, para ONGs das quais nenhum dos reclamantes ouvira falar.

O Fisco encaminhou os casos à polícia, informou que os CPFs foram batizados com senhas nos últimos seis meses, antes disso estavam completamente pagãos. Passou as datas e os dados, inclusive dos endereços eletrônicos e dos computadores de origem dos acessos.

— A polícia vai descobrir quem está fazendo isso.

— Será que vai mesmo, doutor?

— Ah, vai, não tenha dúvida.

— O que devo fazer?

— Os computadores são seus?

— Não.

— E as ONGs, o seu nome aparece em alguma?

— Também não. Umas amigas estão no comando.

— Se elas não derem com a língua nos dentes, talvez você não precise fazer nada. Entendeu? Captou a mensagem? Mas se eu fosse você, procurava também uma proteção espiritual. Conheço um pai de santo lá de Diadema que é dez, quer o endereço?

Maciel foi ao líder do terreiro, contou o seu caso, e ouviu que era preciso fazer um trabalho pesado, mas para isso seria necessário comprar um bode preto. Pagou uma nota pelo bode, dava para comprar um fusquinha velho.

Na madrugada de sexta para sábado lá foi o rapper à sessão, gostou do batuque dos tambores, recebeu um passe, tremeu dos pés à cabeça quando sacrificaram o animal, mas depois sentiu um alívio, como se o bode expiatório levasse consigo, para o outro mundo, todos os bodes do Maciel.

A paz durou até segunda-feira. Na terça, logo pela manhã, quem ligou foi Ded Uindous, o hacker que era seu comparsa no caso das ONGs. Apreenderam um notebook, um iPhone, um iPad, uns cartões de crédito das entidades, uns talões em branco de cheques, e trancaram o hacker, parceiro do rapper, no xilindró.

O advogado novamente entrou no circuito e levantou o caso. O setor de Inteligência Eletrônica da polícia fora acionado e não tardou a descobrir que vários batismos de CPFs partiram dos mesmos equipamentos. Podia ser que falsários diferentes estivessem adotando o mesmo modus operandi, ou que fosse um único grupo agindo de diversas formas para não dar na vista. Uma parte das máquinas ficava numa lan house. Pelos dias, horários e números, o dono da loja não teve dúvida sobre quem era o procurado: um sujeito conhecido como Ded Uindous, entendia tudo de computador, de vez em quando até ajudava o proprietário do estabelecimento a resolver uns paus nas máquinas. Ia toda tarde, navegava umas duas horas e depois caía no mundo.

— E o que eu faço, doutor Bel? — Maciel novamente quis saber.

— Nada. Fica na sua. O seu parceiro vai fechar o bico, já falei com ele. Mas tem uma condição: você vai ter de garantir os honorários da parte dele. E os da sua parte, claro. Aliás, meu caro, estou precisando pagar umas contas…

O rapper preencheu outro cheque, que já estava assinado pela Minervina, e saiu dali cabreiro, foi tirar satisfações com o pai de santo.

— Deu interferência — o despachante do terreiro explicou. — Não tenho culpa. Avisei que o seu caso era grave. Pelo jeito, tem mais de um encosto na parada. O melhor é ir com tudo para cima, atirar em todos os espíritos possíveis, ao mesmo tempo, limpar as amarras todas de uma só vez… Só que vai custar um pouco mais caro. Está faltando bode na praça.

— Quantos bodes?

— Sete.

— Sete…!!!? Caraca. Desse jeito vou à falência.

— Falei… o seu caso é grave… são muitos espíritos maléficos na mesma parada.

Maciel pagou novamente, foi ao despacho na sexta-feira, à meia-noite, ouviu os batuques, mas os gritos dos bodes dessa vez foram tão veementes, alguns até latiram, pareciam cães, o rapper ficou até em dúvida se não eram de fato cães. Foi tanto estardalhaço que uns vizinhos ligaram para o Psiu. Felizmente, para o Maciel e o para o pai de santo, o Psiu não deu as caras, pois o terreiro ficava no território de Diadema, de modo que havia um problema de jurisdição territorial de terreiros, a terrível burocracia que assola o país. Era uma variante da guerra fiscal, a guerra sonora, explicou a moça da central de atendimento à denunciante, mas ainda bem que não estamos na Síria, ela disse e riu, como se o caso fosse para rir.

Assim, Maciel passou mais um fim de semana aliviado, mas na segunda-feira logo pela manhã recebeu outro telefonema de Ded Uindous.

— Cobre o meu pai que ele também tá enrolado.

— Quem é o seu pai?

— Se sou o Odélio Filho, o Ded Uindous, quem seria o meu pai?

— E eu lá sei? Nem sabia que você tinha pai.

— Pô, m’ermão, tá insinuando que sou filho da zona?

— Desculpa, não quis ofender, é que não tenho mesmo ideia de quem é o seu pai.

— Pô, malandro, põe a cuca para funcionar. Odélio Filho só pode ser filho do Odélio pai, o famoso Ded Dos, nunca ouviu falar dele?

— Ded Dos…!? Não, nunca.

— É que você é novo no ramo. Ele está no semiaberto, fica fora de dia, mas de noite se recolhe, na boa.

— Aonde você quer chegar com essa história? O que isso tem a ver comigo?

— Tudo, brother. O coroa andava meio down, então passei o esquema para ele, e ele entrava na área de noite, pela máquina do semi… Percebe?

— E daí, onde é que eu entro?

— Caraca, meu, como é mau um parça lerdo. Os caras da Inteligência da polícia chegaram no computador do administrador do semi, meu. E o administrador claro que não vai segurar a onda. Mas se o meu velho perder o semi por causa do nosso esquema, vou ter que entregar a sua cabeça de bandeja… Percebe?

— Pô, cara, o seu coroa copia o nosso esquema, não paga direitos autorais, e eu ainda tenho de cobrir a área dele?

— É isso aí, m’ermão, copiou direitinho.

Foi então que o Gavião compreendeu a chantagem e percebeu que não é com sacrifício de bodes que se resolve os bodes da vida.

Todos os seus bodes estavam ali, em torno dele, mais vivos do que nunca, os bodes que atacara em sua longa existência de ave de rapina, e alguns de tão ameaçadores pareciam lobos ferozes, os piores inimigos dos gaviões.

Leia os capítulos anteriores:

1. O CPF do Gavião

2. As Garras do Gavião

3. Engaiolaram o Gavião

4. Libertaram o Gavião

5. O Gavião ataca de novo

6. A revoada

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