Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

As autoridades chegaram facilmente às ONGs de fachada e aos hackers Ded Dos e Ded Uindous, pai e filho. Então o rapper Maciel, o Metafórico, também conhecido como Gavião, procurou novamente o rábula Bel Belmonte e pediu que cuidasse também do caso do pai de seu parceiro.

O ilustre causídico de porta de cadeia apurou que os Odélios eram velhos conhecidos da polícia. O pai, que cumpria pena no regime semiaberto e agia até de dentro da cadeia, tinha capivara (ficha criminal) três vezes maior que a do filho, com estelionato em várias modalidades, clonagem de cartões, páginas dublês de sites bancários e até fazendários, invasão de contas e contos virtuais do vigário, etc. Enfim, ambos atuavam no ramo da rapinagem eletrônica.

Tudo isso o rapper já sabia.

— Esse Ded Dos pensa que é esperto, mas é burro para burro — o rábula comentou. — Está totalmente defasado. E o filho pensa que é mais esperto que o pai, pôs uma Lan House na parada, achou que assim se safaria, mas é outra toupeira, pois ia sempre à mesma loja, só variava os equipamentos. E era tão idiota que também agia por iPhone e iPad em nome de terceiros, aparelhos que comprava com cartões de crédito de ONGs do próprio esquema, e o sinal era sempre da mesma antena, da mesma base.

— Ou seja, fedeu, doutor?

— Infelizmente, fizeram caca. Vai ser difícil ajudar aqueles dois.

— E eu, o que devo fazer?

— Reze. Você está nas mãos das meninas das ONGs, que também são umas tapadas, e nas mãos desses dois hackers de meio neurônio cada. E cá entre nós, você também pisou na bola, até para mim deu cheque de uma das ONGs.

— Mas não assinei nada, doutor.

— Não assinou o cheque, mas sou o seu procurador no inquérito, seu burro. Seria fácil vincular o cheque da ONG aos meus honorários, e, portanto, a você.

— Quer dizer que eu me entreguei, doutor?

— Quase, e também quase me envolve como membro da sua quadrilha. Mas, no que me diz respeito, fique tranquilo, que você é burro, mas tem advogado competente. Descontei o seu cheque na praça, num cara que não sabe que eu sou eu, entendeu?

— Não.

— Então ótimo, era isso que eu esperava.

— Mas usei outros cheques para pagar umas coisinhas que comprei para mim, doutor.

— Foi por isso que eu falei: reze, seu burro, reze.

Ao sair do escritório do rábula, depois de perambular a esmo pelo Brás, Maciel viu uma igreja evangélica aberta na avenida Celso Garcia e entrou no meio de um culto. O pastor pregava o renascimento, a transformação radical da vida dos fiéis, prometia o perdão incondicional dos pecados, do passado e do futuro, e aquilo era tudo que o rapper queria ouvir. Esperou o final do culto e foi falar com o missionário.

Passou a frequentar religiosamente as reuniões noturnas e logo foi batizado. A investigação da polícia estava em banho-maria, não chegava até ele, todos os envolvidos de bico calado, e Maciel atribuía o fato ao perdão dos seus pecados.

O pastor, notando que ele se comportava como um bom fiel, parecia um dizimista generoso, e sabendo que era artista fracassado, certa feita encomendou-lhe um rap gospel. Maciel escreveu o rap da fidelidade, e foi sucesso na igreja evangélica. A letra afirmava que a cruz de Jesus quitara todas as dívidas passadas e futuras dos pecadores, bastando que o fiel também perdoasse os pecados dos outros, e fosse fiel, fiel, fiel no dízimo / salvar-se é superfacílimo / não minta que é salário-mínimo / a vida eterna por um décimo / fora, coração péssimo e então entrava um refrão: o preço é ínfimo / pague o dízimo / o preço é ínfimo / pague o dízimo

O pastor adorou o espírito construtivo do rap e convidou o artista para cantá-lo em todas as reuniões da comunidade, inclusive em outros endereços. A propósito, o religioso estava construindo uma casa num condomínio fechado, com piscina, foi dali que tirou aquele espírito construtivo.

Uma gravadora do gênero gospel entrou no circuito, por indicação do pastor do Brás, e acertou um contrato leonino com Maciel, mas ele nem se importou, assinou de olhos fechados, gravaria um cedê sem pôr um centavo e poderia promovê-lo na comunidade evangélica. O rapper não levou uma semana para compor as doze faixas, mas teve de concordar em mudar o seu nome artístico para Maciel, o Dizimista Fiel.

Tudo foi bem demais durante uns três meses. Maciel Fiel vivia no céu, tudo estava rimando em sua vida. Ganhava só para o sustento, mas ainda dispunha de uma boa reserva financeira nas contas das ONGs, e só raramente fazia saques bancários em caixas eletrônicos, mais para reforçar o seu dízimo e os honorários do rábula. Mas agora não assinava nem repassava cheques das meninas, jamais seria tão tolo como já fora, seguia ao pé da letra os conselhos do ilustre causídico de porta de xadrez.

Porém, eis que um belo dia, às seis da manhã, a polícia, a fiscalização da Secretaria da Fazenda, e os promotores do Ministro Público bateram à sua porta. Revistaram o apartamento inteiro, dos potes de café ao forro de gesso, não houve bolso ou bolsa que escapasse. Todas as gavetas, armários, pastas, documentos, tudo foi revirado. Até a caixa d’água da descarga examinaram. As provas não eram poucas, mais que suficientes para que Maciel saísse algemado do edifício, com direito a imagem na tevê.

O rábula foi visitá-lo no DP, para evitar que o depenassem, mas disse que pouco podia fazer por enquanto, estava com medo de também ser enquadrado, pois a polícia tinha em mãos uma lista de coisas que o rapper comprara com cheques das ONGs, e outra com mais de duas dezenas de vídeos em que sacava de caixas eletrônicos com os cartões das entidades, além de um pendrive repleto de conversas telefônicas entre o rapper e as presidentes das entidades de fachada, várias com Ded Uindous, e algumas com o próprio rábula, que por isto ficara temeroso, não se lembrava se dera algum conselho comprometedor.

No dia seguinte, dois jornais estamparam manchetes: Gavião engaiolado de novo e Gavião Fiel preso. Um advogado da torcida organizada Gaviões da Fiel correu ao DP para inteirar-se da ocorrência, conversou com o rapper, mas logo percebeu que sua cliente não estava envolvida, tudo não passava de coincidência: o réu era corintiano, sim, mas jamais se filiara à Gaviões da Fiel, fora noticiado como Gavião Fiel por causa de uma tatuagem. O advogado corintiano aproveitou a conversa para advertir o preso de que jamais usasse aquela expressão como nome artístico, pois poderia ser processado por danos à imagem da fiel torcida.

Maciel ficou ainda mais deprimido, pois não é fácil saber que sua imagem pública consegue ser pior que a da Gaviões. Chegou a pensar seriamente em torcer para outro time, talvez se filiasse à Mancha Verde, só de raiva. Ficou tão chateado que começou a cortar, com a tampa de uma caneta esferográfica, a pele do braço esquerdo em que tatuara o gavião. Queria mudar de vida, ser outra pessoa, cortar todos os vínculos com o passado. O corte não foi profundo, limitou-se a um traço sob os pés da ave, mas ao ver o sangue escorrendo a dor pareceu-lhe ainda mais intensa, a cela começou a girar e ele desmaiou. Se o pai falecido o visse diria que ele era molenga.

Os demais presos demoraram a notar o ocorrido, e quando os carcereiros o levaram para a enfermaria, estava exangue e inerte. O gesto foi registrado como tentativa de suicídio. Apesar do sangue que se esvaíra, o corte não prejudicou a tatuagem, a cicatriz lembraria um galho ou poleiro no qual a ave se apoiava.

Quando soube da prisão do rapper, Daiane não se importou muito, quem sabe agora ele aprende, pensou. Mas quando os jornais noticiaram que ele tentara o suicídio, o coração bateu mais forte e então ela se comoveu: apesar dos pesares, ele não merecia morrer assim, choramingou para as colegas de trabalho. Era inegável que ela ainda tinha uma queda por ele, embora resistisse bravamente ao sentimento. Faz parte do atavismo feminino, diria Victor Henaux, é a tal queda das mulheres pelos tolos.

Passava de meia-noite quando Daiane fechou o livro de Direito Administrativo que estava estudando, a imagem do Gavião suicidando-se não lhe saía da cabeça. Cursava então o penúltimo ano de Contabilidade e tinha um projeto em mente: assim que tirasse o diploma, prestaria todos os concursos possíveis, seria uma auditora de tributos. Lia no ônibus, no metrô, nos intervalos, no banheiro, na cama, não perdia um minuto. Leurites, a chefe do setor fiscal do supermercado Broa de Mel, estava lhe dando uma força, havia uns meses a transferira para a sua área, percebera que Daiane era inteligente e esforçada, aprendia fácil, e realmente precisava de alguém para ajudá-la na elaboração dos mapas-resumo, de preferência alguém que soubesse lidar com Emissores de Cupons Fiscais.

Quando Daiane entrou na enfermaria em que Maciel se encontrava, ainda sedado, tomando soro e plasma, e lhe disse umas palavras carinhosas ao ouvido, ele nada murmurou, mas certamente entendeu que alguém o amava de verdade, que talvez nem tudo estivesse perdido, pois duas lágrimas espessas desceram dos seus olhos fechados. Daiane ficou dez minutos a seu lado, por cortesia de um policial compreensivo que estava de vigília na porta da enfermaria, embora as visitas estivessem proibidas.

Ao acordar da sedação, Maciel não sabia se sonhara com Daiane, ou se ela realmente estivera ali e dissera certas palavras que lhe pareceram reais. Podia ter sido um anjo, pensou. Ou seria a consciência pesada? Não se recordava dos trajes, mas o perfume, a voz e o hálito de maçã eram dela, ele tinha certeza. Sonhei com ela, presumiu. Ouvira no sonho palavras de ânimo, algo sobre concursos que ela pretendia prestar, dissera que estava aprendendo a aprender, que se sentia bem mais confiante, e que fizera duas promessas: uma por ela mesma, e outra por ele.

— Uma promessa por mim… Que bom seria se não fosse um sonho.

Leia os textos anteriores da série:

1. O CPF do Gavião

2. As Garras do Gavião

3. Engaiolaram o Gavião

4. Libertaram o Gavião

5. O Gavião ataca de novo

6. A revoada

7. Os Bodes do Gavião

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