teo-franco1[Teo Franco ]

Era fim de semana, com pouco movimento, o posto fiscal de fronteira era aquela monotonia. Um escutava o futebol pelo rádio, outro tirava cochilo e o Valdemar, um colega agitado, andava de um lado para o outro. Já tinha lavado a viatura, feito a sua caminhada habitual pelas cercanias daquela longínqua repartição estadual.

Estava muito inquieto, irritado com alguma coisa, e isso não era bom sinal, pois o Valdemar era um fiscal chato, aquele que podemos classificar como o mais que o extremamente zeloso, ou melhor, que procura picuinha, pelo em ovo e sarna pra se coçar. Multava até a mãe se precisasse. Tinha orgulho de ser implacável.

Não demorou muito pro Valdemar entrar em ação quando, terminando o turno, apareceu um daqueles caminhõezinhos baú 3/4, e o ansioso colega, mais que depressa, correu pra fazer as verificações de praxe, e mais um pouco… Mesmo alertado que teria pouco tempo até a chegada da outra equipe de revezamento, seguiu em frente a passos largos.

Como gostava de fazer o trabalho sozinho ao seu modo, ele não deu atenção para o que diziam os colegas. Cheio de moral, foi dando ordens para o surpreso motorista:

Pode abrir o baú, que hoje vai ser barba e cabelo – ordenou o prepotente Valdemar.

O ajudante exibiu o calhamaço de notas e prontamente tirou o cadeado e escancarou a porta do caminhão de doces, guloseimas e afins, dizendo que estava tudo certo, e que ia fazer diversas entregas em várias cidades, em lanchonetes, bares e padarias.

O afoito colega de prancheta na mão passou a preencher a planilha, relacionando cada item daquela doce carga calórica, balas, chicletes, pirulitos, marias-moles, pés-de-moleque, etc. deixando os dois funcionários aborrecidos, já imaginando o atraso que lhes custaria a rigorosa ação fiscal.

Como não tinha outra coisa a fazer, perguntaram se podiam aguardar debaixo da sombra da mangueira que ficava atrás do posto fiscal, naquela tarde quente de verão.

Passado algum tempo, foram abordados pelo encarregado da equipe que chegava para render a outra que acabara de sair:

- O que vocês estão esperando? - disse o colega encarregado da nova equipe, tentando inteirar-se da situação.

- Nóis tá esperando a liberação da carga - respondeu o motorista.

Nesse meio tempo o fiscal invocado tinha ido ao banheiro e retornado ao caminhão somente com a planilha que servia de relatório da carga, esquecendo-se das notas fiscais em cima do balcão.

Vendo aquele maço de notas, o encarregado murmurou:

- Esses caras largam tudo de qualquer jeito quando dá o horário de ir embora… – devolveu os documentos, desejando boa viagem aos dois embaixo da árvore.

Mais que depressa, o ajudante bateu a porta do baú e o motorista zarpou a todo vapor pra tirar o atraso…

Para encurtar a história, o Valdemar só foi descoberto depois de alguns quilômetros quando o caminhão parou para fazer a primeira entrega no estado de Minas Gerais. Meio zonzo e desnorteado, o fiscal nem se lembrou de pegar a planilha com suas anotações e logo buscou uma maneira de retornar para sua casa a quilômetros de distância. No plantão seguinte não comentou com ninguém o ocorrido pra evitar gozações.

A verdade é que o Valdemar mudou, pois ficou um bom tempo sem conferir cargas, pelo menos de caminhões fechados…

Discussion - 4 Comments
  1. JOSÉ ROBERTO DE PAULA

    set 27, 2013  at 12:01 am

    Com certeza todo AFR em função externa que tenha participado de plantão em rodovias, ponto fixo ou fiscalização de mercadorias em movimento, deve ter presenciado ou até mesmo sido envolvido com casos bizarros: Como o fiscal de plantão em frigorífico de Alphaville que resolveu autuar a entrada no estabelecimento de pacote de açúcar sem nota fiscal que se destinava também para adoçar o café servido aos plantonistas; ou o instrutor na estrada que decidiu, para dar lição, fazer retornar o caminhão já liberado, lotado de mercadorias, para que o fiscal rigoroso refizesse o trabalho com levantamento específico. Embora sejam estroinices que fazem parte do lado folclórico da profissão, a revelação desses eventos podem ser uteis para a administração racionalizar o ambiente e procedimentos de trabalho, pois como ensina o filósofo, o homem é ele ao quadrado mais as circunstâncias.

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  2. Sandra

    set 29, 2013  at 12:01 am

    Téo, mais uma vez, parabéns pelo excelente artigo. É preciso mesmo resgatar, registrar e revalorizar o legado da experiência daqueles que deixaram a sua contribuição de vida no combate à mazela recorrente dos crimes de sonegação.

    Em artigo recente da Revista Exame, foi apontado a impressionante quantia de R$ 132 bilhões/ano em perdas de recursos públicos por conta de crimes de sonegação no Estado de SP.

    http://exame.abril.com.br/economia/noticias/sao-paulo-perde-r-132-bilhoes-por-ano-para-sonegacao

    Adicionalmente, pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Municípios indica em R$ 10 bilhões o valor das renúncias fiscais do Estado de SP.

    Ainda, cabe observar que, desde 2010, o Estado do RJ tem logrado revalorizar esse legado, modernizando e reativando os seus postos fiscais rodoviários interestaduais de ICMS e também percebido a importância de um quadro completo de AFRs.

    Vejam os vídeos abaixo e se perguntem por que os postos de fiscalização rodoviária interestadual do ICMS SP ainda permanecem desativados:

    http://www.youtube.com/watch?v=LvNYx3x2IUk

    http://www.youtube.com/watch?v=umPnl2FpWnU

    http://www.youtube.com/watch?v=OhqRIpyt9m4

    http://www.youtube.com/watch?v=emffNPXdsjs

    http://www.youtube.com/watch?v=haVH8mWIWNk

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  3. Nogueira

    set 29, 2013  at 12:01 am

    Sei de um caso que o colega ficou preso num caminhao de sorvete, a sorte é q o pessoal viu e parou o caminhao na saída do posto… rsrsrs

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