Antonio_Sergio_Valente[Antônio Sérgio Valente]

Quem tiraria o Gavião da gaiola em que a Justiça o trancara provisoriamente não seria Daiane. Ela sentia pena dele, mas achava que um belo puxão de orelhas não lhe faria mal nenhum. Um retiro espiritual de vez em quando, ainda que forçado, pode ser bem produtivo. Apesar disso, todos os dias passava na igreja de São Judas e rezava, pedia luzes para si e para o irmão que andava com más companhias, solução para os seus problemas, êxito nos objetivos, saúde para a mãe, e ultimamente acrescentava também um pedido genérico para a Leurites, a amiga que lhe dera oportunidade de trabalhar na área tributária do supermercado, e um específico para o Maciel: liberdade, juízo e bons modos na vida. Sim, também fizera duas promessas: uma para passar num concurso da área fiscal, e outra pela regeneração do rapper.

Dois meses depois da prisão, o pastor de uma comunidade na qual Maciel cantara algumas vezes o seu rap da fidelidade (que os pastores costumavam chamar de rap do dízimo) foi visitá-lo. Não era o pastor do Brás, mas um outro, Marthes Inápcio de Moraes, que se apresenta como Reverendo Mim. É um tipo obeso, lembra um pouco o Tim Maia, mas a pele é um pouco mais escura. Bem humorado, ri pelos cotovelos.

— É um gozador esse Mim — um outro pastor comentara certa feita com Maciel. —Até o nome de guerra dele é uma piada. É uma mescla de Idi Amim e Reverendo Moom, duas figuras controvertidas.

Piada ou não, o fato é que o Reverendo Mim tinha à disposição de sua igreja, segundo informou ao prisioneiro, um belo quadro de advogados, e talvez pudesse livrá-lo, se tivesse fé e concordasse em propor um desafio aos céus, um pacto com o regente do universo.

— Você topa? — ele bateu com tanta força no ombro do preso que quase o desloca.

— Reverendo, os céus não querem saber de mim.

— Claro que querem, mas eu é que sou Mim, você é você — e riu como se contara uma piada engraçada.

Maciel apenas sorriu, sem mostrar os dentes, mais por delicadeza. Por certo, o reverendo soubera do golpe e imaginava que o fiel cantor nadava em dinheiro. Esse pastoreco deve ser outro aproveitador, o rapper pensou, mas não disse. Provavelmente imagina que, embora a Justiça tenha confiscado os meus bens e as minhas contas, devo dispor de um bom capital com familiares ou laranjas, talvez até no exterior, afinal eu soube com antecedência que o golpe estava sendo investigado. Vou ver aonde ele quer chegar.

— Qual seria o desafio, reverendo?

— Você propõe aos céus um pacto: assina uma nota promissória no maior valor que possa pagar ao sair daqui, para as obras assistenciais da nossa comunidade. Assim que sair, você vai lá e cumpre rigorosamente, religiosamente o trato. Não tente ludibriar quem vê tudo, quem sabe de tudo, quem dispõe sobre tudo. Pois quem tem poder para dar, tem para tirar.

— E se eu não sair daqui?

— Não deve nada. É um pacto. Se a outra parte não cumprir, você fica dispensado. Mas a outra parte, meu caro, você sabe muito bem que tem poder e cumpre o que combina.

— Então pago só depois de sair daqui?

— Claro. Os céus confiam em você. Mas se der o calote… mmm… nem pense nisso. Quer fazer agora a proposta?

— Agora…? Assim, já…?

— A pressa de sair daqui é sua. A menos que esteja gostando do ambiente e queira ficar.

— Não, eu quero sair ontem cedo bem de manhãzinha.

— Então proponha agora, imediatamente. Ainda no culto desta noite, na presença dos irmãos, posso abençoar a proposta e os céus mostrarão a força que têm.

Era uma proposta de baixo risco, mas ainda assim o Gavião não era otário, não assinaria nota promissória nenhuma. Aquele documento poderia ser protestado e executado, enquanto Maciel apodreceria na cadeia. Então apenas escreveu, no verso do impresso, uma declaração prometendo doar uma expressiva quantia assim que fosse libertado, escreveu o número com todos os zeros, mas não assinou o anverso.

O reverendo percebeu a desconfiança, mas não se deu por achado, disse ótimo, que bom que você confia nos seus e em mim, no Reverendo Mim, que bom.

Embora houvesse uma ponta de ironia nas palavras do pastor, uma semana depois o Gavião Fiel sairia da gaiola e o pastoreco estaria lá fora, à sua espera.

— Não disse que sairia?

Como aquilo acontecera, Maciel não tinha a menor ideia. Soube apenas que os advogados tinham bons contatos no Judiciário, um vasto arsenal de argumentos firmes e valiosos no bolso do colete, e conseguiram o mandado de soltura, ele responderia o processo em liberdade.

— Mas você ainda pode ser condenado — um dos advogados o alertou.

— Não se tiver fé nos céus e confiar no Reverendo Mim — o reverendo retificou o alerta.

Maciel tentou regatear, cumpriria de imediato metade do prometido, o saldo só quando fosse inocentado definitivamente. Então o reverendo ficou muito furioso, você está desconfiando dos céus, descumprindo a promessa, você saiu ou está lá dentro?

— Saí, mas pode ser que eu volte.

— Se pagar só a metade, será o mesmo que descumprir a promessa. Então não há dúvida de voltará à prisão. Contrato assinado no céu, meu caro, com firma reconhecida pelos irmãos, no cartório do regente do universo, não pode ser retificado ou aditado, não, de jeito nenhum, o que está escrito, está escrito, cumpra-se o combinado.

Contrafeito, o rapper cumpriu a promessa. De fato, dispunha de algum capital, em dinheiro, num esconderijo que só ele e a mãe sabiam. E conservava também a velha Pajero e uma casa nova ainda sem escritura e registro, bens que adquirira em nome da mãe. Felizmente não incluíra na promessa a casa, mas teve de entregar a Pajero e todo o dinheiro prometido, nota por nota.

O gavião estava depenado.

Um mês depois, recebeu intimação para comparecer ao julgamento em que figurava como réu ao lado das garotas que comandavam as ONGs de fachada, e dos hackers Ded Uindous e Ded Dos. Tinha plena convicção de que seria absolvido, embora não pudesse o mesmo acerca dos demais acusados. Afinal, só ele fizera um pacto com o regente do universo, e até já honrara o compromisso.

A juíza leu a sentença e bateu o martelo: um crime para cada ONG aberta, formação de quadrilha, agravantes por conta invadida e número de saques em caixas eletrônicos, etc. Resumo da ópera: doze anos de condenação.

O Gavião nem conseguiu ouvir as penas dos demais.

— Mas se tiver bom comportamento, em dois anos progride para o semiaberto — o advogado da equipe do Reverendo Mim traduziu em miúdos as palavras da sentença, enquanto os policiais o conduziam à prisão — Dois anos voam.

— E para quem é gavião voam mais rápido ainda — o reverendo brincou e riu, mas o Gavião apenado não viu graça nenhuma no adendo.

Sentia-se depenado e apenado.

Se não estivesse num tribunal, entre dois policiais, esganaria o pastor, o advogado e a juíza. E se as videntes e o pai de santo estivessem ali, naquele instante, o Gavião eriçaria as penas e os atacaria com suas garras afiadas e com o bico, comeria o fígado e os rins de cada um.

— Filhos da… mãe…! Mãe, não chora, mãe, não chora… — ele se desmanchou quando a mãe foi abraçá-lo no corredor do fórum.

As penas se espalhavam por todos os lados.

Até a juíza ficou com pena dos dois: — Um rapaz tão novo e simpático. Que pena — confidenciou a um Agente Fiscal de Rendas que fora depor como testemunha e lhe emprestou um lenço para enxugar uma lágrima imprevista. — Que pena…

Leia os textos anteriores da série:

1. O CPF do Gavião

2. As Garras do Gavião

3. Engaiolaram o Gavião

4. Libertaram o Gavião

5. O Gavião ataca de novo

6. A revoada

7. Os Bodes do Gavião

8. O Gavião Fiel

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