teo-franco1[Teo Franco]

Disfunção ética e impotência fiscal

Sildenafil foi a droga mais celebrada na virada do Século XXI, depois de descoberta por acaso, pelo químico inglês Simon Fraser Campbel, que buscava um composto para dilatar as artérias, protegendo assim, o coração das crises de angina.

Apelidada de pílula azul e popularmente chamada de Viagra, após seu retumbante e vigoroso lançamento, o mundo mudou, ou melhor, modificou o desempenho de quem passou a fazer uso da azulzinha. Mas, o comportamento do sonegador não alterou nada, pelo contrário, o produto popular fertilizou o instinto selvagem dos esquemas obscenos.

Devido ao interesse, não assumido, por parte do fiel mercado consumidor, as sedutoras pílulas passaram, quase que instantaneamente, a circular mal parando nas prateleiras das farmácias. Embora seja tarefa difícil achar quem faça uso delas, em qualquer conversa, no boteco, trabalho ou evento social, não se encontra um herói, sequer, que assuma esse compromisso.

Desde então, a disfunção ética de contribuintes cheios de más intenções aproveitou-se da oportunidade para fecundar novas empresas fantasmas, renegadas desde o nascimento, fazendo crescer e multiplicar o desempenho criminal através da inseminação de créditos bastardos no mercado, operando sob o manto dos desejados produtos, tanto o Viagra como seus concorrentes Cialis, Levitra e Vivanza.

Foi o que um fiscal constatou quando recebeu a excitante tarefa de verificar as suspeitas de comercialização despudorada do cobiçado produto. Devido ao sucesso do mágico elixir, o esquema mantinha a gestação e disseminação de inférteis créditos de ICMS.

Após as verificações preliminares, a cada passo, a ação fiscal mais aumentava de volume, com mais diligências, gerando diversos filhotes, das empresas maquiadas. Nos diversos endereços declarados, inclusive dos sócios, ninguém foi encontrado, nem mesmo através dos telefones registrados, contadores ou intermediários, como se tudo  fizesse parte do mundo da fantasia. E era, ficou comprovado que, tanto o crédito do imposto era irreal quanto fictício era o efeito das pílulas vendidas.

Da mesma forma que eram falsificados os documentos fiscais, também eram falsamente inoculadas as cápsulas do afrodisíaco sintético. Assim, créditos inócuos para as pílulas que não faziam inocular.

Restou ao impotente servidor, a tarefa de registrar os fatos, após minucioso, burocrático e estéril processo, para, depois, fazer a reprodução de diversas autuações aos destinatários – que tiveram envolvimento (consentido ou não) na indecente aventura – do esquema introduzido por delinquentes com atração fatal por violar a legislação tributária.

Em resumo, até hoje, tanto os clientes continuam buscando soluções para a carência de virilidade, tal qual o Fisco tem se empenhado para diminuir a sua impotência em  abortar a constante criatividade dos depravados tributários, estupradores dos cofres públicos, numa espécie de masoquismo com a cidadania.

O que o inventor Campbel [que chegou a atuar no Brasil como professor visitante na USP] não imaginava, é que causaria uma verdadeira e saudável revolução no comportamento sexual, menos ainda, poderia supor os nocivos desdobramentos, da sua descoberta, no campo da fraude fiscal.

Discussion - One Comment
  1. Sebastião Viana

    out 09, 2013  at 12:01 am

    Téo, gostei de mais da conta, sô!. O sentido intelectual e laborativo além do comportamento do contribuinte e do agente público estão, sem dúvida, muito bem retratados nessa crônica. Me fez lembrar quando no começo da minha carreira, em 1988, ao abordar um contribuinte, minhas pernas tremiam, suava frio, gaguejava e até hoje não sei se era excesso de zelo, insegurança ou até mesmo falta de viagra. Superei a tempo para fazer e ver esses mesmos efeitos nos contribuintes examinados. rsrsrs. Parabéns pelo seu trabalho.

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