carroca2[Waldeban Medeiros*]

Zé de Sousa é um desses Agentes Fiscais das antigas e, portanto, tinha lá suas desconfianças para com o pessoal novato que entrou em 1997, egresso do concurso público mais importante que um governo da Paraíba jamais promovera, dado a magnitude da concorrência, quebrando inclusive o recorde da concorrência para os vestibulares de medicina de muitos anos após.

Em 1982, quando o Diário Oficial cantou a minha nomeação, fui ao Centro Administrativo do Estado receber a minha portaria de designação. Era, na época, Assessor Parlamentar do saudoso deputado estadual Soares Madruga, com quem muito aprendi em termos de administração pública, dada às circunstâncias com que ele sempre dispensou aos seus auxiliares, deixando-os à vontade conquanto às funções desempenhadas, mas que sabia cobrar responsabilidade quando no cometimento de qualquer falta.

Quando recebi minha portaria de designação ela estava dirigida à cidade de Sousa, distante quase 430 quilômetros de João Pessoa. Pensei: “ora, se eu trabalho com um deputado da situação, na época, como podem ter a ousadia de me transferirem para tão longe”? Fui falar com o deputado Madruga e ele me respondeu:

- Aprenda a cumprir ordens! Vá trabalhar! Um dia eu lhe trago para João Pessoa!

Fui e comecei a trabalhar com o Zé de Sousa, meu primeiro Coletor estadual, um homem justo e sincero, com o qual também aprendi muito. Morava, na época, num dos dois apartamentos localizados no primeiro andar do prédio da Coletoria estadual, no centro da cidade. Dada às proximidades com o local do trabalho, me dava ao luxo de chegar, às vezes, quinze ou vinte minutos depois das duas horas, hora limite para o início dos expedientes, talvez até ainda acostumado com as benesses do cargo de Assessor Parlamentar.

Zé de Sousa, numa situação dessas, não deixava por menos. Sentado na sua cadeira giratória, em cima de um estrado com cerca de 30 cm de altura, ficava na posição de um rei perante seus súditos. Quando eu adentrava ao recinto da Coletoria para receber suas ordens, ele olhava para um antigo, infalível e pontual relógio de pêndulo, incrustado numa caixa de madeira escura e exclamava, com os ponteiros do velho relógio marcando exatas 14 horas e 20 minutos:

- Esse não vai dar certo no Fisco! Chegando atrasado todo dia! Começando desse jeito, logo, logo não passa do estágio probatório!!!

Mesmo que, como funcionário público já antigo fosse dispensado do estágio probatório, eu escutava e dava o calado como resposta, pois não ousava contestar a sua autoridade de chefe de serviço e Coletor Estadual, função de extrema responsabilidade que se igualava em autoridade ao juiz, ao padre e ao prefeito do lugar.

Certa quarta feira, por volta das 11 horas da manhã, sob sol escaldante que somente o sertão paraibano sabe produzir, deslumbro-me com uma carroça de burro e sobre ela, uma carga a passar da altura do seu carroceiro. Eram mercadorias que uma lona escura e amarras de cordas impediam de ver seu conteúdo. Pensei:

- Eis minha chance de provar a minha competência como Agente Fiscal! Vou apreender essa mercadoria e mostrar ao Coletor que eu sei cobrar imposto!

Abordei o carroceiro, perguntando o que ele transportava e de quem era as mercadorias e este foi logo me informando de que nada sabia, pois fora pago apenas para deixar a encomenda numa certa bodega localizada num sítio, nas cercanias da cidade.

- E as Notas Fiscais?

- Tem não! – respondeu ele.

- Então, meu caro, terei de apreender toda a mercadoria e lavrar um Termo de Apreensão pra você apresentar ao dono dela. Você vai descarregar da carroça e eu vou transportá-la para a Coletoria!

- Pelo amor de Deus, seu guarda, leve a mercadoria, mas não me leve preso, não!!! – apelou o carroceiro.

Tranquilizei-o dizendo que apenas a mercadoria era quem estava apreendida e ele poderia seguir viagem.

A mercadoria em questão era composta de quatro grades de cerveja, duas grades de cachaça, três grades de refrigerante (guaraná e produtos cola), duas caixas de Alka-Seltzer, duas caixas de Melhoral, três dúzias de pilhas grandes, duas dúzias de pilhas palito, uma saca de açúcar, duas sacas de feijão de arranca (ou chocha bunda), uma saca de arroz… Enfim, uma feira completa que dava para fazer a minha produtividade por uma quinzena. Lavrei o Auto de Apreensão, entreguei uma via ao carroceiro.

Pelo rádio da viatura na qual fazia a ronda desse dia, chamei um veículo maior, uma caminhoneta Chevrolet C-10, para fazer o transporte para a Coletoria. Dei entrada no Termo de Apreensão, descarreguei a mercadoria com a ajuda de Chumbo, um auxiliar de serviço pau pra toda a obra e fui almoçar. Logo após o almoço, como sempre, fui repousar nas dependências da Coletoria e, me imaginando um herói pelo trabalho efetuado, me apresentei não mais às vinte para as três da tarde mas, quase as três e meia, uma ousadia e tanto!

Antes que Zé de Sousa dissesse alguma coisa, eu gritei da porta da Coletoria:

- Boa tarde meu chefe Zé de Sousa, olha ai como se trabalha!

Como de praxe, olhou o relógio sob a sua cabeça e exclamou:

- Novamente atrasado! Mas, veja quem está lhe esperando!

Intuitivamente, olhei de lado e me deparei com um homem de feições sofridas, cabelo e barba por fazer, calça jeans desbotadas – não por moda e sim pelo uso – sandálias tipo japonesa com cada arreata em cores diferentes e… talvez para me atemorizar, na cintura uma faca peixeira, cujo cabo deixava transparecer sua saliência sob camisa puída pelas sucessivas lavagens.

Sem eu nada perguntar ele foi logo se antecipando:

- É o seguinte, seu guarda: com a muié parida do sétimo fio na maternidade! Os trecos que o sinhô prendeu é da minha budega, lá no sítio da Várzea da Cruz! Esses trecos faz parte do meu sustento e da minha famia, se o sinhô prender eu passar fome!

Constrangido e condoído com a situação, porém sem demonstrar medo, nem nervosismo, lá mesmo da porta olhei pra Zé de Sousa e gritei:

- Zé de Sousa, a gente pode rasgar este Termo de Apreensão e liberar esta mercadoria?

Fazendo pose de autoridade maior, ele me respondeu na bucha:

- Não se rasga documento público ou você não sabe disto?

- Mas, eu posso cancelar, posso ou não? – retruquei no ato.

- Você é quem sabe! Se estiver disposto a não fazer a sua produtividade, você pode!

Fazer minha produtividade em cima de uma situação puxada pra calamitosa daquela, e diante de tanta sinceridade, não pensei duas vezes: peguei as duas vias do Termo que estavam na Coletoria, juntei com a via do contribuinte e a 4ª via do meu talão, coloquei papel carbono e tasquei em letras garrafais:

O PRESENTE TERMO ESTÁ C A N C E L A D O

Coloquei meu carimbo, minha matrícula funcional, datei, assinei e disse para o dono da mercadoria:

- Pode ir descansado fazer o seu comércio, a mercadoria está em suas mãos e contra você não existe nada aqui na Coletoria!

Ele, bastante surpreso, olhou para mim e fuzilou:

- E quem é qui vai pagar o frete da carroça pra levar a minha mercadoria pro sítio?

Abri a carteira e lhe dei dinheiro para as despesas com o frete, sob o olhar de reprovação de Zé de Sousa!

Oito anos depois eu ascendia ao cargo de Coletor estadual e portava um título de Cidadão Sousense!

* Waldeban Medeiros é escritor e psicólogo. Auditor Fiscal do Estado da Paraíba aposentado, exerceu o cargo de Coletor Estadual na cidade de Sousa nos anos 90/94, com título de cidadão sousense pela sua militância no futebol da cidade “sorriso”, tendo sido um dos fundadores da Liga Sousense de Futebol.

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