benedito

[Antonio Carlos de Moura Campos] Nosso querido Benedito acaba de partir. Dito, como era carinhosamente chamado por nós, servidores fiscais da Secretaria da Fazenda de São Paulo, pertencia ao seleto rol dos homens apaixonados. Partiu no rastro de luz deixado por Mandela, outro homem apaixonado.

Depois de 60 anos de dedicação às causas da classe dos agentes fiscais de rendas, Benedito recusava-se a deixar o convívio daqueles pelos quais tanto lutara. Estava lá todos os dias, na sede da Afresp, junto à família que adotara. Pois era essa a sua verdadeira família. Nos últimos dias que o vi, passos trôpegos apoiado em uma bengala, já exibia as marcas do tempo. Mas não estava lá apenas para se distrair. Queria participar das reuniões e deliberações, ele que semeou uma série infindável de realizações positivas para a classe, desde a sua primeira sede própria até a criação de um plano de saúde em prol dos associados e de suas famílias, hoje com quase 20 mil filiados em todo o Estado de São Paulo. Até mesmo numa recente reunião, em que discutimos a repaginação do Blog da Afresp, ele lá estava.

Como um ator que sonha morrer em cena, ele conseguiu partir sem se afastar um minuto só daqueles que fizeram sua razão de viver. Por isso, era um homem apaixonado.

Durante meus quase trinta anos de passagem pela Secretaria da Fazenda, conheci pelo menos dois outros homens apaixonados, que igualmente se foram.

Um deles também tinha “Benedito” no nome, o Dr. Rosário Benedicto Pellegrini, que durante décadas representou os contribuintes no Tribunal de Impostos e Taxas. Em todos os eventos e celebrações, lá estava ele na tribuna, cheio de verve, a proferir discursos inflamados. Era o “orador” oficial do TIT, chamado de “patativa” pelo Luiz Fernando de Carvalho Accacio. Todas as terças e quintas ele chegava com um saquinho de balas, que distribuía às mulheres que trabalhavam no TIT.

Mas o tempo foi passando e, aos poucos, afetando sua saúde mental. Nessa época, eu era vice-presidente do TIT e dividi sérias preocupações com a Dra. Eliana Bertacchini, então na presidência. Que fazer? Excluí-lo do TIT seria a morte para ele. E seu filho já nos advertira do abalo que o afastamento do tribunal por certo produziria em sua frágil saúde. Mas ele não conseguia mais elaborar votos nem acompanhar os debates, e não podíamos permitir essa situação. Depois de muita discussão, apareceu a fórmula salvadora: em todas as votações, o presidente da câmara levava folhas em branco que todos assinavam após a leitura dos votos, inclusive o Dr. Pellegrini, as quais ao final da sessão eram destruídas sem que ele percebesse. Naturalmente que ele não integrava oficialmente a composição do colegiado, na época com seis julgadores. Era o “sétimo” julgador.

O terceiro homem apaixonado que conheci foi o lendário Lauro de Vasconcellos Filho. Ele já trabalhara mais de 50 anos na Secretaria da Fazenda quando eu entrei, em 1982. Era o Diretor do TIT. A ele se atribui a proeza de ter emplacado duas sextas-partes, benefício auferido pelo servidor estadual a cada 25 anos de atividade. Era um homem muito respeitado – e temido pelos servidores fiscais que, digamos, não exerciam com o devido zelo seus misteres funcionais. Nas fiscalizações em estradas ou vias públicas, ele comandava todo o movimento com um apito, acessório que lhe era inseparável.

Mas os anos foram se passando também para ele e Lauro se viu prestes a completar seus 70 anos, data em que teria de ser compulsoriamente aposentado. Um momento terrível para quem gozava de perfeita lucidez e tinha energia inesgotável para o trabalho. Decidiu, então, que entraria na Justiça para impedir sua aposentadoria compulsória. Consultou legislação, doutrina e jurisprudência e entrou com Mandado de Segurança, certo de que iria obter autorização judicial para continuar trabalhando. Que belo exemplo para tantos servidores que ficam contanto os dias para completar o tempo necessário para entrar com pedido de aposentadoria!

Só que o destino lhe foi cruel e Lauro perdeu a batalha judicial. Pode-se dizer que não perdeu apenas uma ação, mas a razão de viver. Pois não conseguiu sobreviver após ter sido compulsoriamente afastado. Morreu pouco tempo depois. Lembro-me de sua festa de despedida, no Edifício Itália. Albino Cassiolatto, seu grande amigo e então Diretor da DEAT, pediu-me para registrar o evento em vídeo, ao final do qual Lauro recebeu de presente um apito de ouro. Não só filmei como editei o vídeo, inserindo ao final uma mensagem, com sons de Wagner ao fundo, na qual, em tom emotivo, contei sua dramática luta pelo direito de continuar a viver como servidor público.

Três homens que se recusaram a deixar para trás o serviço público, sua razão maior de viver. Para eles, servir ao público não era emprego, mas missão. Eram, realmente, homens apaixonados.

Quanta saudade!

Discussion - 2 Comments
  1. Antônio Sérgio Valente

    dez 11, 2013  at 2:25 pm

    Emocionante o texto do Moura.
    O Benedito era uma espécie de paisão de todos nós. Acompanhava a filha Afresp de perto, viu-a nascer e crescer, e percebia-se em seus olhos que nutria um imenso e inesgotável amor por ela. Não era um amor desses piegas e descartáveis, era um amor zeloso, abnegado, de quem se preocupa com o ser amado.
    Sempre presente, nos bons e maus momentos, nas derrotas e nas vitórias, nunca fugia à luta. Lutava com classe, calmo, elegante e conciliador. Falava pouco, era conciso e direto, até um pouco tímido, mas suas opiniões tinham precisão e conteúdo. Um exemplo para todos nós.
    Embora não fosse do Conselho deste Blog, e estivesse já bem debilitado, fez questão de nos prestigiar na reunião que decidiu pelo novo leiaute.
    Vai de volta para Deus, bendito Benedito, que a missão está cumprida.
    Que sua alma boa encontre o regozijo eterno.
    Pêsames aos familiares e muita força para suportar a tão sentida ausência do Benedito.

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