urna-eletronica

[João Francisco Neto *] Em 1989, um pouco antes da Queda do Muro de Berlim, o sociólogo americano Francis Fukuyama publicou um artigo denominado de “O Fim da História?”. Essa publicação causou muita confusão e estranhamento nos meios políticos e acadêmicos. Todos passaram a se perguntar: como assim, não haverá mais a História? Na verdade, o que Fukuyama queria dizer é que, com a iminente derrocada do comunismo, que logo viria a ocorrer, haveria, também, uma espécie de esgotamento do “motor” da Guerra Fria, que alimentava as tensões entre o mundo capitalista e o mundo soviético. Desta forma, a História Mundial ficaria, digamos, sem o motor que a impulsionava. Certo ou errado, Fukuyama acabou virando uma celebridade acadêmica de nível internacional. Por outro lado, é bem verdade que, após a derrocada do comunismo soviético e a ascensão das teses neoliberalistas, o mundo nunca mais foi o mesmo. Guardadas as devidas proporções, podemos observar que algo semelhante vem ocorrendo com os partidos políticos. Os recentes protestos e manifestações de rua têm deixado bem claro a crise de representatividade que atinge em cheio todos os partidos políticos. Durante décadas, ou séculos, os partidos políticos operavam como uma entidade mediadora, que canalizava os anseios de grande parte da população, que neles confiava. Com a popularização da internet, redes sociais, telefones celulares, cada um de nós se sente à vontade para pesquisar o que quer que seja, e a emitir nossa própria opinião, sem a necessidade de nenhuma intermediação.

De uma hora para outra, o povo adotou outra dinâmica, que ainda não foi digerida pelos partidos políticos, acostumados a um discurso de promessas que nunca se realizam. Veja-se que, recentemente, em meio a uma monumental onda de protestos, alguns políticos notórios, ocupantes de altos cargos da República, davam-se ao desfrute de embarcar em jatinhos militares para assistir a jogos de futebol, levar a família para festas, etc. O mundo estava se “acabando”, e esses políticos, alheios a tudo e a todos, sequer ouviam o recado que vinha das ruas; por certo imaginavam que, depois, tudo voltaria a ser como antes, no “quartel de Abrantes”. Hoje, com a transparência da notícia na TV, e apesar de toda a manipulação, o povo tem condições de tirar suas próprias conclusões, que, aliás, não são nada boas para os políticos, é claro. Vivemos numa democracia, mas muita gente tem a amarga sensação de que não basta somente ter direito ao voto para escolher os governantes se esses, depois de eleitos, adotam comportamento totalmente distanciado dos interesses populares. Frequentemente, os partidos majoritários, quando no poder, passam a viver para seus interesses privados, em meio a um caldo de corrupção, favorecimento de todo tipo e autoritarismo. Embora os partidos políticos ocupem um papel central nas modernas democracias representativas, grande parte da população não vê neles nenhuma serventia. Antigamente, os partidos de oposição funcionavam como uma espécie de contrapeso ao poder; hoje, nem isso mais, porque o povo bem sabe que, quando são eleitos, pouca ou nenhuma diferença fazem. Não é por outra razão que esses movimentos de ruas se espalham pelo mundo todo (Egito, Espanha, Turquia, Rússia, entre outros). Capitaneados pelos mais jovens, o povo tem saído às ruas não só para demonstrar sua profunda insatisfação, mas, também, para exigir que alguma coisa positiva seja feita, de imediato, sem promessas vazias. Em geral, as respostas têm sido insuficientes para acalmar o furor popular, pois os governos acenam com planos futuros, reformas políticas, cortes orçamentários; ou seja, medidas absolutamente burocráticas que, a rigor já deveriam ter sido adotadas há muito tempo, mas que no atual contexto político de nada servem. E, em meio a esse estado de coisas, os partidos políticos pouco têm a oferecer.

* O AFR João Francisco Neto é doutor em Direito Econômico, Financeiro e Tributário pela Faculdade de Direito da USP (Largo São Francisco), com a tese “Responsabilidade Fiscal e Gasto Público no Contexto Federativo.

Discussion - 2 Comments
  1. JOSÉ ROBERTO DE PAULA

    jul 29, 2013  at 12:01 am

    Verificada a falta de representatividade dos atuais quadros políticos, que cometem fraudes e estelionatos grosseiros com os mandatos outorgados pelos eleitores, é difícil não dar razão a quem prega o fim dos partidos políticos, . O senador Cristóvam Buarque de Holanda é um deles, não sei se em definitivo ou por um período de carência durante uma reforma política. A tese do “Fim da História”, pós derrubada do muro de Berlin, não encontra arrimo na realidade: Pactos e negociações entre nações; Guerras, revoluções e crises globais continuam a acontecer como sempre, para alívio dos historiadores e sociólogos ; admitir o contrário, seria como imaginar a possibilidade absurda do planeta terra existir sem seus movimentos de rotação e translação.
    Todas as grandes nações infelizmente já tiveram suas graves, terríveis e tenebrosas tragédias políticas( Inglaterra – Guerra Civil, sec. XVII; l Estados Unidos, 1860 – Guerra Civil que causou mais mortes que em todos os conflitos externos que se envolveu; Espanha, Guerra Civil , 1936-1939, Guernica; França – Revolução de 1789-1799, Guilhotina; Russia – Revolução Bolchevique – Gulags, etc., Alemanha – Nazismo, holocausto, etc.) e curiosamente nenhuma delas inventaram um novo sistema que eliminasse os partidos da cena política.
    Que o atual sistema político mostra entropia – não esta servindo mais como “caixa de ressonância” da sociedade-, é verdade indiscutível. Fazer as reformas políticas profundas, da forma como os movimentos sociais reivindicam, parece tarefa quase impossível de ser concretizada, principalmente porque muitas das questões suscitadas necessitariam da intervenção e mudanças em cláusulas pétreas da Constituição, que só uma constituinte originária poderia realizar, cuja convocação é fora de cogitação, considerando a atual ordem institucional. Isto posto, o melhor a fazer neste momento é ter esperança na solução pacífica e a contento de todos os problemas vociferados nas ruas, contando com o proverbial jeitinho brasileiro e a fé de que Deus é brasileiro.

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  2. Antônio Sérgio Valente

    jul 29, 2013  at 12:01 am

    Subscrevo o artigo do João Francisco, da nossa São Francisco. E, a propósito dos Franciscos, como o Lobato finalizou citando “a fé de que Deus é brasileiro”, repito aqui a breve observação do argentino Papa Francisco, em entrevista veiculada ontem, no Fantástico, da Rede Globo.
    O Papa, indagado sobre o recente movimento que se espalhou pelas grandes metrópoles do Brasil — embora admitindo desconhecer o conteúdo das reivindicações, e recomendando que os jovens devam ser ouvidos, sempre, que a utopia do jovem é que muda o mundo — fez uma discreta alusão à hipótese de manipulação dos jovens. A Igreja tem olhos e ouvidos apuradíssimos, sobretudo ouvidos. Ela sente as ruas não nas ruas, mas em outros ambientes mais serenos.
    O problema é que as ruas não entoaram um grito uníssono e coerente, queremos isto e aquilo, por estas e aquelas razões. Não, as ruas começaram pedindo um vintém (para usar a expressão do Clóvis Panzarini, no artigo Marilena Intuiu), e terminaram pedindo um milhão — um milhão de tudo: até mesmo o fim dos partidos, ou seja, o fim da representação política.
    Ora, se tirarmos da praça a representação política, sem pôr nada no lugar, só restam duas opções: ANARQUIA ou DITADURA.
    Qual destas duas as ruas preferem?
    As ruas querem alguma outra forma — ainda indefinida, nem as ruas sabem como seria — de exercício da política. Talvez seja a tal Ágora, da qual nos falou o Moura em seu artigo aqui publicado (O ÁGORA É AGORA), aludindo a uma possível ÁGORA virtual.
    Mas essa ÁGORA precisa ser ideologicamente construída. Mesmo porque a maior parte da população brasileira ainda não se expressa através da internet. A maior parte dos idosos e dos brasileiros periféricos nem computador tem.
    Muita gente mal sabe ler e escrever, como saberia expressar-se e compreender o que outros dizem na internet?
    Muita gente se atrapalha até com os botões do controle remoto dos televisores…!
    A nossa comunicação, a da sociedade brasileira como um todo, dos rincões interioranos, ainda é eminentemente oral, e a internet, embora seja também um pouquinho oral, é muito mais escrita do que falada.
    Não podemos nos deslumbrar com a internet. Ela é ótima, sim, mas está muito longe ainda de ser conhecida por todos.
    Um ÁGORA virtual hoje seria uma DITADURA DA ELITE INFORMATIZADA.
    Mas teria a elite informatizada o direito de presumir o que a Dona Gertrudes, minha mãe, quer para si, para seus filhos, netos e bisnetos? Garanto como jamais presumiriam corretamente, e a sociedade estaria perdendo muito se não a ouvisse em algum tipo de urna, senão a eleitoral, alguma outra, mas que não seja a da internet, pois ela é meio como o Papa, prefere a proximidade com as pessoas, o contato direto, sem nada de virtual. E olhem que ela é que está certíssima. Quando me sinto muito virtual, vou até ela e ponho os pés no chão, e aprendo para burro.
    A nova política não pode ignorar as Gertrudes, ou perderá um outro tipo de sabedoria que vai muito além do mero conhecimento que a internet divulga, uma sabedoria que a internet não sabe e não consegue construir nem propalar, pois essa sabedoria não se expressa na ausência do contato direto.
    As ruas terão de refletir sobre o que querem, e construir uma nova ideologia em cima desses valores, mas uma ideologia que não exclua segmentos da sociedade.
    É por isso que vejo na nova democracia ainda a representação política, embora talvez com mais participação direta, com mais avocação de mandatos, com mais plebiscitos, com mais referendos, com mais consultas populares, com mais orçamentos participativos.
    E já escrevi demais, está virando um artigo. Sem revisão.

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