olhando-pra-frente

Temos de inspirar os jovens para pensarem de forma serena, e que tenham o propósito de alcançar melhora contínua das condições de vida e do aprimoramento da espécie humana…

[Benedicto Ismael Camargo Dutra*] Organizar a economia do país de forma equilibrada não é tarefa fácil devido à limitação de recursos, despreparo da mão de obra, superpopulação, alterações climáticas. Mas no Brasil isso fica muito mais complicado com as manipulações especulativas praticadas sobre o câmbio, cujo volume, conforme José Paulo Kupfer, colunista de Economia do jornal O Estado de São Paulo, supera em mais de quatro vezes as operações reais.

Uma boa lição a aprender com a China seria o manejo do dinheiro e o sistema cambial. Lá não se permite especulação com a moeda. As reservas são criteriosamente utilizadas. Não há dependência de capital externo. As populações pobres do campo ficarão entusiasmadas com alguma melhora ao serem incorporadas à produção industrial, mas no futuro, apesar do PIB elevado, é provável um aumento da infelicidade geral num sistema de vida rígido de rotinas massacrantes.

Enquanto isso, no resto do mundo uma minoria vai concentrando a riqueza cada vez mais. No entanto, a grande massa se vê constrangida a possibilidades de ganhos que vão se estreitando, provocando o descenso da chamada classe média, o que reduz suas oportunidades de ganho, sendo essa a grande desigualdade. Nos Estados Unidos, isso era contornado com crédito barato, mas com o acúmulo de dívidas e redução nos ganhos o sistema implodiu.

Há uma distorção mundial na utilização da mão de obra, nas taxas de juros e de câmbio. Com nova cara o velho mercantilismo impera nas relações e na maximização dos ganhos, sem que se note preocupação com o aumento da miséria. É um comportamento egoístico que se reveste de uma implacável luta pela sobrevivência e ampliação do poder. Vale tudo: enganar, subfaturar, sonegar, corromper. Falta responsabilidade com o amanhã desde longa data. O que o futuro nos reserva com todo esse descuido com a qualidade humana e de vida? Um problema essencial para as nações ocidentais será promover o restabelecimento do equilíbrio da produção, consumo e contas pessoais e do Estado, frente à maior participação da Ásia na produção industrial.

Depois de duas décadas perdidas administrando a dívida externa que influenciou a elevação da inflação, o Brasil adentrou no Plano Real que congelou o dólar, manteve elevada a taxa de juros, reduziu a inflação, exportou empregos, fragilizou a indústria, que até então fora o polo de evolução técnica e da mão de obra. Além disso, os governantes não conseguiram administrar as finanças com equilíbrio, não fortaleceram a infraestrutura e permitiram o desperdício do dinheiro. Houve contenção da inflação, mas o preço foi alto em termos do futuro.

Equilibrar as contas é uma tarefa difícil com tantas variáveis externas e internas, mas o fundamental não tem sido aplicado: planejar os gastos com eficiência, evitar os déficits e desperdícios, acabar com esse desmando, o que para nós resulta em as obras pública tenham custos até três vezes superiores.

Produzir alimentos deveria ser um trunfo no mundo superpovoado. No entanto faltou consistência e melhor planejamento na produção e seu escoamento. O sucesso na exportação de primários elevou a reserva, mas amoleceu a fibra. Descuidou-se do câmbio e da indústria. O declínio na indústria de autopeças é bom exemplo entre tantos outros. Deve-se considerar também que a agropecuária e a industrialização não podem ser feitas com a destruição da natureza, sob pena de inviabilizar as condições de vida.

Agravamos o descuido no que se refere ao bom preparo da população. Permitimos muita precariedade nas moradias e na mobilidade urbana, na falta de saneamento, no declínio na qualidade das famílias e na educação. Descuidamos da formação técnica dos jovens para que pudessem vir a ser incluídos na moderna sociedade do trabalho. Estamos enfrentando a civilização do medo e insegurança. A violência se esparrama pelas cidades com assaltos e atos de vandalismo. As pessoas se iludem com o engodo de alguma melhora no acesso a bens duráveis, mas falta uma perspectiva de melhor futuro duradouro.

A ideia de melhor distribuição dos ganhos das empresas aos trabalhadores deveria ser pensada, com o governo dando sua contribuição, reduzindo um pouco a carga tributária. Seria excelente para dinamizar o consumo, sem incentivar o aumento do endividamento da população, o que aumentaria o PIB do Brasil, contribuindo também para melhorar a participação nos resultados.

Com o encerramento de 2013 poderíamos ficar desfiando um montão de problemas. Os mais críticos parecem ser o crescimento do individualismo, que reduziu a consideração, e o avanço da religião do dinheiro, que insensibilizou a vida, tornando-a mecânica e áspera. As coisas ficaram mais difíceis; os relacionamentos humanos se mostram com pouca consistência. Além da destrutiva inveja, há como uma dormência no ar, faltam vibração e autenticidade no falar e no agir. É o domínio do raciocínio e a ausência do Amor e generosidade.

O Ano Novo está aí para pensarmos em metas a serem alcançadas com garra e otimismo. Em vez de reclamar, criticar e falar mal, temos de definir as metas que queremos alcançar e transformar o querer em ação, com trabalho sereno, constante, cumprindo tarefa por tarefa com alegria. Assim conservaremos a paz e a saúde, física e psíquica. Temos de colocar uma base sólida para o pensar. Já se disse que somos o resultado do que pensamos. Darwin escreveu que “o estágio mais elevado possível na cultura moral é quando reconhecemos que devemos controlar os nossos pensamentos”.

Temos de inspirar os jovens para pensarem de forma serena, e que tenham o propósito de alcançar melhora contínua das condições de vida e do aprimoramento da espécie humana, tendo como base para a educação o bom preparo para a vida, com mente lúcida e flexível, desejosa de alcançar a excelência, como meio que assegura o progresso. Para alcançarmos a paz duradoura, precisamos criar no planeta condições de vida que nos permitam ser verdadeiramente humanos.

Necessitamos de líderes empenhados com o progresso do país e sua população. Faltam rumos e um projeto de nação que promova a evolução integral. Ficamos fornecendo matéria-prima e alimentos, barateando os importados, enquanto a indústria submerge. Permanecemos sem autossuficiência financeira. Se continuarmos desse jeito poderemos cair de novo na armadilha de necessitar de empréstimos externos para cobrir o déficit. E agora? Qual seria a receita para evitar uma decadência ainda maior? Que o digam nossos ilustres candidatos.

Para concluir, retomo a questão do pensamento citando Abdruschin, autor da Mensagem do Graal, que recomenda que nos esvaziemos de pensamentos, deixando irromper livremente o impulso para as coisas nobres e boas, o que nos dá a base para o pensar sobre o que procede do espírito, ou como outros preferem, da alma, do coração, ou do eu interior.

Aproveitemos este momento significativo aceitando o convite para a renovação. Feliz Ano Novo!

* Benedicto Ismael Camargo Dutra é AFR aposentado, graduado pela FEA/USP, associado ao Rotary Club de S. Paulo, realiza palestras sobre qualidade de vida. Coordenador dos sites http://www.vidaeaprendizado.com.br e http://www.library.com.br, é autor dos livros: Conversando com o homem sábio; Nola – o manuscrito que abalou o mundo; O segredo de Darwin; e 2012…e depois? (bicdutra@library.com.br)

Discussion - 3 Comments
  1. antônio Sérgio Valente

    fev 04, 2014  at 12:01 am

    Oportuno esse artigo do nosso colega Benedicto Ismael. Tem tudo a ver com o momento político-econômico-social que vimos atravessando. Os movimentos desordenados das ruas, os rolés e rolezinhos todos indicam claramente que a juventude anda meio sem norte e sem oriente. Desnorteada. Desorientada.
    Alguém dirá: — Mas o que isso tem a ver com economia e tributos?
    Ora, tudo. O bom trato da economia, os estímulos à expansão da atividade, à geração de empregos, à inclusão social, a tributação sem escorcha e sem privilégios, bem distribuída, um sistema tributário de baixa complexidade, medidas enfim que estimulem o crescimento industrial nativo, que atraiam confiança internacional e investimentos, que gerem empregos e renda, que eduquem e encaminhem os jovens para o mercado de trabalho, certamente é salutar para a sociedade e não deixa de ser ótimo para os erários.
    E é preciso que as novas gerações tenham presentes esses conceitos, pois a mera destruição de ônibus, as manifestações que cerceiam o direito de ir e vir de não-manifestantes, de gente que precisa ir ao trabalho, à escola, ao médico, ao hospital, ao shopping para trabalhar ou fazer compras, tudo isso age na contramão do desenvolvimento, tudo isso reduz vendas, reduz receitas tributárias, reduz índices de desenvolvimento humano, tudo isso mais destrói do que constrói.
    Manifestações, sim, são ótimas, mas em lugares combinados, que não atrapalhem o ir e vir da população, que não impeçam atendimentos hospitalares, que não prejudiquem ainda mais a já tão sofrida mobilidade urbana. O direito de ir e vir do manifestante não é superior ao direito de ir e vir do não-manifestante. Isso precisa ser compreendido e repassado pelas ONGs que andam “ensinando” cidadania e formação de redes aos jovens de comunidades carentes, em alguns casos até com dinheiro público (da Nota Fiscal Paulista…!!)
    Gostei muito desse artigo do Benedicto. Economia e espiritualidade têm em comum muito mais do que sonha a nossa vã sociologia, e mais ainda do que sequer imagina a nossa tecnocrática econômica.
    .

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    • Benedicto Dutra

      fev 04, 2014  at 12:01 am

      Prezado Antonio Valente.
      Muito bom o seu comentário. Gostei. “Quando os bons se calam, os maus tomam as rédeas”.

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  2. antônio Sérgio Valente

    fev 04, 2014  at 12:01 am

    “… a nossa tecnocrática economia”, as últimas palavras são estas e não as que os dedos digitaram.

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