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[Fernando Alecrim] No início deste ano eu escrevi aqui que a classe “C” seria o fiel da balança nas eleições de 2014, e que, no cenário econômico negativo que já se fazia notar, caso a classe C não criasse empatia e estabelecesse confiança em algum candidato alternativo, então a Presidente Dilma deveria vencer as eleições, ainda que dificilmente viesse a fazê-lo no 1º turno. A lógica do eleitor da classe C nesse cenário seria “ruim com ela, pior sem ela”.

Também escrevi que caso isto ocorresse, a Presidente reeleita herdaria uma economia bastante desarrumada, o que pode se revelar desastroso por conta de um cenário externo que promete ser muito pouco amigável para aqueles países que não tenham cuidado de seus fundamentos econômicos, o que poderia até implodir as chances do atual partido político no poder federal em 2018, pois isto levaria a aquele tipo de mandato em que a eleita não teria um minuto de paz, do começo ao fim, criticada por todos por causa da alta da inflação, do dólar e dos juros, da queda do PIB e do emprego, da educação e da saúde em níveis de verdadeira indigência, dos investimentos adiados em mobilidade urbana em troca de uma Copa superfaturada e de Olimpíadas idem, em que seria forçoso constatar que não houve algum benefício disso tudo para a população, pelo contrário.

Bem, neste primeiro momento, não posso deixar de pensar que a Presidente Dilma terá uma tarefa hercúlea pela frente, pois irá se deparar com algumas conseqüências de decisões ou de “não-decisões” realizadas em grande parte durante o segundo mandato do Presidente Lula, e que foram aprofundadas durante a própria gestão dela.

Primeiro, do ponto de vista econômico, os melhores analistas vêm sendo unânimes em prever uma crise cambial pela decisão do Presidente do Banco Central norte-americano em enxugar os dólares do mercado internacional a partir de algum momento do ano que vem.

Aliado a isto, nada indica no horizonte uma solução para a queda de braço com a indústria, considerando a aparente manutenção da atual política econômica porque, ainda que o Ministro Mantega esteja demissionário, ninguém duvida que quem realmente decide os rumos da política econômica – a “Nova Matriz Econômica” – é a própria Presidente. Assim, tende a continuar a paralisação nos investimentos causada pela desconfiança do capital nacional e estrangeiro com um governo de viés visto como intervencionista do ponto de vista do Capital, ao praticar uma política econômica tida por anacrônica, mais condizente com os tempos analógicos dos anos 70, quando eram escolhidas a priori pelo Regime Militar as empresas vencedoras na Economia, despejando-se nelas rios de dinheiro a juros subsidiados ou anunciando-se projetos faraônicos (que hoje, pior, nem conseguem sair do papel), como a transposição do Rio São Francisco ou a construção da Usina de Belo Monte, sem contar com a polêmica mudança no marco regulatório da exploração do petróleo, que alterou o regime de concessão pelo regime de partilha, nos termos da Lei n.º 12.351/2010, o que levou a exploração do petróleo na plataforma marítima brasileira a ficar praticamente à míngua de capital novo estrangeiro, não fossem algumas estatais chinesas, que pela sua própria natureza de empresa pública obviamente não obedeceram apenas a critérios financeiros e econômicos em suas decisões, mas, suspeita-se, principalmente a critérios políticos.

Em razão disso, faz todo o sentido a previsão de diversos analistas econômicos de que o Brasil verá mais pibinhos e inflaçõesonas ao longo do próximo mandato.

No aspecto político, temos um cenário ainda mais temerário, se é que isto é possível, desenhando-se no horizonte, tantas as guerras que a Presidente Dilma declarou contra atores políticos e econômicos que a situação chega a lembrar a da Alemanha na 2ª Guerra Mundial, que se tornou em certo momento, pela sua própria belicosidade e centralização das decisões pelo Führer, um país cercado de inimigos por todos os lados. Apenas para nos situarmos:

(1) contra a mídia independente, particularmente, aquela representada pelas revistas dominicais e pelos grandes grupos de comunicação do Sudeste, no que poderá se mostrar como um caso especial do velho efeito “Orloff”, pelas similaridades com fatos ocorridos recentemente na Argentina;

(2) contra a indústria nacional, conforme já mencionamos acima;

(3) contra o investidor do mercado financeiro, nacional e estrangeiro, também já mencionado;

(4) contra lideranças da reserva das Forças Armadas, que chegou ao seu ponto mais acalorado com o manifesto divulgado em 26/09/2014, assinado por vinte e sete generais da reserva com críticas ao Ministro da Defesa e à Comissão Nacional da Verdade;

(5) contra o Poder Legislativo, com a emissão do Decreto n.º 8.243/2014, cujo artigo 9º preceitua que os conselhos monitorarão e implementarão, através da secretaria especifica e da Casa Civil, as políticas que o povo desejar, através dos conselhos. A esse respeito, o grande tributarista professor Yves Gandra da Silva Martins, mostra-se alarmado: “Num país que tem 140 milhões de eleitores como podemos aceitar que o Congresso Nacional que nos representa seja substituído, trocado por conselhos de algumas pessoas,” – disse o Dr. Yves Gandra, esclarecendo que “o Poder Legislativo, por pior que seja, representa a totalidade da população, pois lá está a situação e a oposição. Com a criação dos conselhos, nossa política será decidida por estes conselhos em nome da sociedade e o governo tem que implementar a política por eles definida. Estes conselhos que eles chamam de sociedade civil organizada vão representar a sociedade. E não os 140 milhões de eleitores que votam para escolher os seus representantes”. O Dr. Yves Gandra conclui que a presidente Dilma tem uma grande dificuldade de diálogo, não só com seus colaboradores, pois tem um temperamento mais difícil do que o ex-presidente Lula, principalmente com o Congresso Nacional. Escanteando o congresso, e definindo todas as políticas sem necessidade de projetos de lei, o Congresso será uma casa sem nenhuma função;

(6) contra o Poder Judiciário, num futuro muito próximo, considerando a pressão crescente que setores de oposição farão à medida que as denúncias feitas pelo Ex-Diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, e por aquele que vem sendo considerado por muitos como o seu chefe “de fato” no esquema de desvio de dinheiro da estatal que é atualmente investigado pela Polícia Federal (“Operação Lava Jato”), o doleiro Alberto Youssef. Importa lembrar que a vaga do ex-Ministro Joaquim Barbosa ainda não foi preenchida, e que o atual decano dos Ministros do STF, o Ministro Celso de Mello, deverá sair da Suprema Corte em algum momento de 2015. Ambas as vagas ficarão à disposição da Presidente da República para indicação de outros ocupantes, que deverão fazer parte da composição do Tribunal Superior que eventualmente decidirão sobre a procedência ou não de um pedido de impeachment oferecido pela Câmara dos Deputados para ser julgado pelo Senado Federal.

Alguns candidatos às duas vagas são hoje pessoas que têm interesses entrelaçados com os do Partido dos Trabalhadores, tais como o atual Advogado Geral da União, Luis Inácio Adams, ou o Ministro da Justiça do primeiro governo de Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo. Sem contar outros que já foram mais votados, como o Chefe de Gabinete da Presidência Beto Vasconcelos, que goza da estrita confiança da atual Presidente da República.

No entanto, faltou sorte aos envolvidos na Operação Lava Jato em razão da distribuição do processo tê-lo levado à responsabilidade do Ministro Teori Albino Zavascki, do STF, um experiente ex-Ministro do STJ, conhecido por sua celeridade e discrição na relatoria de processos. Ao contrário do que muitos pensaram quando do seu polêmico voto no processo do mensalão, o Ministro Zavascki é um juiz de conduta irrepreensível e extremamente técnico, um jurista respeitadíssimo em seu meio, com diversos livros publicados no ramo do Processo Civil, alguns deles já tidos por clássicos. Tal como o Juiz Federal do TRF-4 (Paraná), Juiz Sérgio Moro, que tem se incumbido de, entre outras tarefas, colher os depoimentos de Costa e Youssef nos respectivos processos de delação premiada, que estão hoje sob sua jurisdição.

Porém, esta vitória apertada da candidata à reeleição pode se configurar numa “vitória de Pirro” em razão de tantos problemas graves a espreitar o seu segundo mandato. Já há analistas respeitáveis e conhecidos pelo equilíbrio e sensatez de suas análises falando na inevitabilidade de um processo de impeachment a ser enfrentado pela Presidente reeleita.

Diante da gravidade desse quadro, conviria à Presidente aceitar o conselho do candidato da oposição derrotado, e de fato buscar a união da sociedade dividida em duas partes praticamente de mesmo tamanho após esta infame campanha presidencial, não obstante cada candidato tenha declarado considerar apenas o outro como responsável pelo nível de violência verbal, numa espécie de “Fla-Flu” estúpido – expressão que hoje é lugar-comum na contenda entre PT e PSDB.

Seja como for, já contrariando o discurso conciliatório da vitória, começam a circular os primeiros boatos de que a Presidente pretende fazer as classes mais altas pagarem mais imposto de renda, pela instituição de uma nova faixa de renda, superior, que teria uma alíquota maior. Caso se confirme em algum momento do novo mandato, talvez não seja por acaso, pois significaria que a parcela do eleitorado que não apoiou a candidata arcaria com os custos políticos e econômicos do seu programa de segundo mandato, contribuindo para financiar, com uma parcela maior de sua renda, o crescente buraco nas contas do Tesouro.

Arrisco-me a dizer que, agora reeleita e sem preocupações com a opinião pública pela impossibilidade de disputar um novo mandato em 2018, a Presidente Dilma, caso se veja acuada pelo agravamento de tantas pressões em algum momento, pelo que se conhece de seu temperamento, segundo relatos que vêm de dentro do próprio governo e que tendem a afirmar que ela tem temperamento irascível e pouco ou nada conciliatório, poderá fomentar ativamente conflitos com alguns destes setores ou com outros que hoje ainda não criticam os rumos do seu governo, como forma de desviar a atenção dos problemas que ela não deseja ou não tem como enfrentar, tais como uma eventual confirmação futura das denúncias do ex-Diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef respingando em seu primeiro mandato e/ou no segundo mandato do ex-Presidente Lula.

É fato que essas denúncias causarão um terremoto no Congresso Nacional e nas hostes do próprio governo Dilma (prometendo atingir também o ex-Presidente Lula), prevendo-se tentativas de abafá-las por meio de ardis já vistos em inúmeras CPIs e CPMIs. Afinal, fala-se em cerca de quatro dezenas de políticos de diversos partidos da coligação governamental. Partidos políticos como o PMDB e o PR, também frontalmente atingidos, deverão juntar forças com o partido da Presidente na tentativa de abafar o escândalo.

Porém, pelo próprio ânimo e polarização da metade do eleitorado que votou na oposição nesta última eleição, é também possível que vejamos uma ressurreição daquele sentimento que redundou nas manifestações de junho de 2013. Tudo depende das lideranças.

Contra as chances de contenção dos danos de mais este escândalo, o Congresso Nacional teve sua composição e ordenação das forças alterada em 2014 e poderia não demonstrar tanto compromisso com a defesa de políticos mais ligados à legislatura que se hora se finda, caso pressionado por manifestações nas ruas. Dependendo de haver um clima de “salve-se quem puder”, o PT poderá receber uma punhalada nas costas, pois tudo indica que não terá sequer a Presidência da Câmara, que deverá ficar para um desafeto da Presidente, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que apoiou abertamente Aécio Neves nas eleições.

Também é de se esperar que as forças policiais contenham mais efetivamente os “black blocs” que, conforme se descobriu, eram pagos e apoiados por certos partidos da esquerda mais “revolucionária” para afugentar os manifestantes da classe média, tendo a tristemente notória Sininho como musa.

Em um cenário como este, poderemos ter já ao final de 2015 graves desdobramentos detonados imediatamente pelas denúncias e, mediatamente, pela insatisfação popular pelo possível agravamento da crise econômica.

Por tudo isto, talvez o Presidente Nacional do PT, Ruy Falcão, tenha se precipitado ao lançar a candidatura do ex-Presidente Lula para as eleições de 2018. Conforme o desenrolar dos acontecimentos – se não neste ano, certamente a partir do próximo –, poderá ser útil à parcela do eleitorado que votou na candidata da chapa da situação tomar conhecimento das ideias políticas do atual Vice-Presidente da República reeleito, Michel Temer.

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